Análise: O regime iraniano opera com líder ausente

Amanda Rocha
Tempo: 5 min.

Quase uma semana após sua nomeação como líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei continua nos bastidores. Os iranianos tiveram o primeiro contato com suas ideias na quinta-feira (12), quando uma longa declaração atribuída a ele foi lida na televisão estatal. No dia seguinte, sua primeira sexta-feira como líder coincidiu com o Dia de Al Quds, ocasiões em que o líder supremo normalmente se apresenta em público. Contudo, Mojtaba não apareceu.

Seis dias após sua nomeação, o povo iraniano ainda não o viu nem ouviu sua voz. Uma fonte com conhecimento da situação informou que Mojtaba sofreu uma fratura no pé, um hematoma no olho esquerdo e pequenos cortes no rosto no primeiro dia da campanha de bombardeios dos EUA e de Israel, quase duas semanas atrás – a mesma onda de ataques que resultou na morte de seu pai e altos comandantes militares iranianos.

O filho do presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, que é assessor do governo, afirmou que Mojtaba estava ferido, mas em local seguro. O secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, comentou que Mojtaba estaria “provavelmente desfigurado”, sem apresentar evidências, enquanto Israel indicou que qualquer novo líder supremo seria alvo.

Apesar da ausência de Mojtaba, milhares de fiéis foram às ruas para declarar lealdade, em um movimento que se tornou um grito de apoio, enquanto o regime busca consolidar apoio por meio de manifestações, especialmente nos últimos dias do Ramadã. A ausência contínua de Mojtaba levanta a questão de quem governa o país em tempo de guerra.

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Ao longo de quase quatro décadas, Mojtaba Khamenei atuou principalmente nos bastidores do governo de seu pai, exercendo influência, mas raramente aparecendo em público. Agora, ao assumir o cargo mais poderoso do Irã em meio a um conflito militar com EUA e Israel, sua invisibilidade reforça a ideia de que instituições e órgãos de segurança no país podem ter mais peso do que a presença do líder supremo.

Pregadores ligados ao Estado têm incentivado os fiéis a declarar lealdade, com o influente clérigo Mahmoud Karimi afirmando que “o fato de ninguém jamais tê-lo visto diz muito sobre seu caráter”, transformando o mistério de Khamenei em virtude. Entre críticos do regime, a falta de visibilidade do novo líder tem gerado críticas, com imagens manipuladas dele como um “boneco de papel” circulando nas redes sociais.

Com tão pouco material verificado, veículos oficiais e canais estatais recorreram a vídeos e imagens geradas por IA para reforçar apoio, incluindo cenas fictícias ao lado do pai ou de figuras históricas do regime. Vídeos mostram o novo líder discursando para grandes multidões e ao lado de seu pai em momentos históricos – cenas que, na verdade, nunca ocorreram.

A cultura política do Irã também foi moldada por décadas de guerra e crise. Apenas um ano após a fundação da República Islâmica em 1979, o líder iraquiano Saddam Hussein invadiu o país, desencadeando um conflito brutal de oito anos. Até agora, leais ao regime demonstram pouca preocupação com a ausência do novo líder, parecendo dispostos a esperar por sua aparição eventual.

A diretora do programa Oriente Médio e Norte da África no Chatham House, Sanam Vakil, afirma que “o regime pode se sustentar temporariamente sem aparições públicas”. Ela acrescenta que a falta de visibilidade não compromete necessariamente a legitimidade no curto prazo, especialmente se as instituições-chave continuarem funcionando e as decisões parecerem coordenadas.

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Analistas afirmam que o mais importante agora em Teerã não é a visibilidade do líder supremo, mas a coesão das instituições subordinadas. Órgãos de segurança, como o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), provavelmente conduzem a estratégia de guerra, independentemente da presença de Mojtaba. Sua nomeação ao topo da hierarquia política pode ser suficiente para dar legitimidade política às forças militares.

Por enquanto, não há pressa em exibir o novo líder diante das câmeras. Ele já cumpre o papel que o regime exige. O que resta saber é como será sua posição após o fim da guerra. “Após o conflito – ou em circunstâncias mais desafiadoras – a elite política, não apenas o público, precisará de sinais claros de que ele consegue exercer autoridade”, conclui Vakil. Por enquanto, seu paradeiro continua secreto, e poucos de seus seguidores questionam o motivo.

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