Antissemitismo disfarçado de crítica a Israel

Amanda Rocha
Tempo: 4 min.

O antissemitismo é frequentemente apresentado como crítica ao governo de Israel, mas essa narrativa ignora a reciclagem de mitos antigos que têm sido usados para atacar os judeus ao longo da história.

Um exemplo é o libelo de sangue medieval, onde os judeus eram falsamente acusados de assassinato ritual de crianças cristãs. O primeiro caso registrado ocorreu em Norwich, na Inglaterra, em 1144, desencadeando uma série de acusações que resultaram em massacres e expulsões de comunidades judaicas na Europa. Essas falsas alegações continuam a ser perpetuadas em muitos países árabes na era moderna.

Atualmente, Israel é acusado de políticas que visam intencionalmente crianças ou de colher órgãos de árabes, ecoando a estrutura do libelo de sangue. Em 2009, um jornal sueco publicou alegações de que soldados israelenses colhiam órgãos de cadáveres, gerando indignação e tensão diplomática. O autor admitiu não ter provas, mas a história se espalhou globalmente.

Além disso, os desfechos trágicos da guerra em Gaza são frequentemente reinterpretados como acusações de que Israel intencionalmente matou crianças, apresentando isso como prova de uma suposta barbaridade única dos judeus. A retórica frequentemente desliza para uma linguagem que remete a fantasias medievais sobre sedento de sangue e assassinato de crianças.

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Outro mito antigo é a ideia de que os judeus controlam o mundo. O documento forjado conhecido como The Protocols of the Elders of Zion, publicado na Rússia czarista no início do século 20, alegava revelar uma conspiração judaica para dominar a política e as finanças globais. Apesar de ter sido amplamente desmascarado, essa mentira continua a ressurgir, reciclada por extremistas que se baseiam em ódio secular.

Em 2026, esse mito é frequentemente reembalado como alegações de que grupos como a AIPAC manipulam governos, mídias e instituições financeiras. Embora existam grupos de defesa que buscam moldar a opinião pública e a legislação, Israel é retratado como especialmente malévolo e onipotente, capaz de manipular governos inteiros.

Quando influenciadores e membros de comissões governamentais fazem declarações como “prefiro morrer do que me submeter a Israel”, fica claro que as teorias da conspiração sobre o controle judaico persistem. Protestos que afirmam que “Israel controla a América” ou que “sionistas dominam a mídia” não são críticas de políticas, mas sim descendentes diretos dos Protocolos, com Israel representando o judeu.

O padrão é claro: os judeus foram falsamente acusados de envenenar poços durante a Peste Negra, e agora Israel é acusado de espalhar doenças em Gaza. As narrativas antigas são preservadas, mudando apenas o sujeito de uma minoria judaica dispersa para um estado judeu soberano. Tratar essas alegações como simples raiva contra Israel é, no mínimo, ignorância; mais provavelmente, é um subterfúgio intencional.

Governos podem cometer crimes e exércitos podem violar leis, mas quando a crítica se baseia em mitos que justificaram pogroms e expulsões anti-judaicas, já não estamos no âmbito do discurso comum. Denunciar isso não fecha o debate, mas expõe as verdadeiras intenções de vilipendiar e isolar o povo judeu. Não podemos permitir que o antissemitismo seja rebatizado com uma linguagem moderna e protegido pela etiqueta de “antissionismo”.

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