A inteligência artificial (IA) se tornou parte da rotina de muitas empresas brasileiras, mas a transformação dessa adoção em vantagem competitiva ainda enfrenta desafios. Um estudo da Newnew, intitulado Panorama de Sentimento das Lideranças 2026, revelou que 80% das empresas utilizam algum tipo de aplicação de IA.
Apesar da ampla adoção, apenas 11% das lideranças consideram que a implementação foi um sucesso. A pesquisa, que ouviu mais de 300 líderes de médias e grandes organizações, destaca que a maioria das empresas ainda se encontra em um estágio intermediário de maturidade organizacional.
Os principais obstáculos identificados não são técnicos, mas sim humanos e estratégicos. Cerca de 70% dos gargalos estão relacionados à cultura organizacional, à falta de habilidades críticas e à dificuldade de direcionamento da liderança. Mariana Achutti, CEO da Newnew, afirmou:
““A discussão saiu do campo da adoção e entrou no campo da gestão. O que ainda não está claro é como estruturar direção, critérios e responsabilidade para que ela gere vantagem competitiva real.””
Os fatores que mais pressionam os executivos incluem saúde mental (41%), produtividade que não acompanha o aumento das demandas (31%), déficit de talentos qualificados (28%) e dificuldade de implementar novas tecnologias (22%).
Outro ponto importante destacado pelo estudo é a falta de governança. Apesar da disseminação da tecnologia, 53% das empresas ainda estão em estágios inexistente ou embrionário na criação de diretrizes e métricas para orientar o uso da IA. A implementação da tecnologia avançou mais rapidamente do que a construção de estruturas que orientem decisões e reduzam riscos operacionais e reputacionais.
O levantamento sugere que o Brasil vive uma situação intermediária em relação ao que foi projetado pelo Fórum Econômico Mundial para 2030. Há entusiasmo e rápida adoção da tecnologia, mas ainda falta estrutura para transformar essa inovação em ganhos competitivos duradouros. Achutti enfatiza que o próximo salto não será apenas tecnológico, mas humano, exigindo mais pensamento crítico e responsabilidade coletiva.
O estudo também revela que muitas empresas adotaram ferramentas de IA antes de definir processos e prioridades estratégicas, criando um cenário em que a tecnologia não está plenamente integrada à tomada de decisão. A combinação de falta de preparo e a condução inadequada da transformação organizacional são apontadas como causas para essa situação.
Achutti destaca que as empresas que avançam mais rapidamente são aquelas que colocam a aprendizagem contínua no centro da estratégia. Organizações que estruturam programas de reskilling e conectam a IA aos problemas reais do negócio tendem a ter mais sucesso.
Por fim, a pesquisa indica que existe um componente de sinalização na adoção da IA, onde muitas empresas sentem pressão para demonstrar que estão usando a tecnologia. No entanto, a verdadeira transformação ocorre quando a IA influencia decisões e modelos de negócio, e não apenas quando é utilizada para automação de tarefas.


