Ataques ao Irã podem beneficiar Rússia na guerra contra a Ucrânia

Amanda Rocha
Tempo: 4 min.

Os ataques americanos e israelenses ao Irã foram criticados pela Rússia, aliada da nação persa. A escalada do conflito no Oriente Médio pode trazer vantagens estratégicas para Moscou na guerra contra a Ucrânia.

O Kremlin interpreta a ofensiva como um exemplo das intervenções militares do Ocidente para derrubar governos adversários. Essa leitura reforça a narrativa do presidente Vladimir Putin, que defende a necessidade de agir preventivamente para proteger a soberania russa.

Na quarta-feira, a Rússia acusou os Estados Unidos de usar a “ameaça imaginária” do Irã como pretexto para derrubar a ordem constitucional. Putin classificou os ataques contra o Irã e a morte do líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, como uma “violação cínica de todas as normas de moralidade humana e do direito internacional”, segundo a agência de notícias russa Tass.

Moscou mantém uma relação estratégica com Teerã, especialmente na área militar. O Irã é um dos principais fornecedores de drones utilizados pela Rússia na guerra na Ucrânia, aprofundando a cooperação entre os dois países nos últimos anos. Apesar da parceria, a Rússia não indicou que pretende intervir militarmente em defesa do Irã.

Na segunda-feira, a Guarda Revolucionária iraniana anunciou o fechamento do Estreito de Ormuz, afirmando que qualquer navio que tentasse cruzá-lo seria incendiado. O bloqueio paralisou a circulação de embarcações comerciais na rota estratégica, por onde escoa cerca de 20% de todo o petróleo transportado por via marítima no mundo.

O tráfego de petroleiros na rota caiu 90% em apenas uma semana, segundo dados divulgados pela consultoria de análise marítima Kpler. A medida já provocou alta nos preços globais de petróleo e gás, principais fontes de receita da Rússia. A interrupção parcial do comércio energético na região pode levar grandes importadores, como China e Índia, a ampliar a compra de petróleo russo.

““Quando um bom quinto do suprimento global de petróleo e cerca de um quarto do comércio marítimo são efetivamente bloqueados, isso é uma benção para a Rússia”, disse Sergey Vakulenko, membro sênior do Carnegie Russia Eurasia Centre.”

O conflito no Oriente Médio pode impactar indiretamente a guerra na Ucrânia. Um envolvimento militar mais profundo dos Estados Unidos na região pode reduzir a quantidade de armamentos disponíveis para Kiev, especialmente sistemas de defesa aérea.

O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, alertou que a prioridade dada à segurança de aliados no Oriente Médio pode dificultar o envio de mísseis Patriot fabricados nos EUA e outros equipamentos militares para Kiev. “Podemos ter dificuldades em adquirir mísseis e armas para defender nosso espaço aéreo”, disse Zelensky, acrescentando que ataques do Irã a Israel em junho do ano passado já haviam atrasado algumas entregas.

Para Moscou, uma possível redistribuição dos recursos militares dos EUA e de seus aliados pode aliviar a pressão sobre suas forças no front ucraniano.

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