O presidente do Tribunal de Apelação de Antuérpia, Bart Willocx, afirmou que a Bélgica pode se transformar em um ‘narcoestado’ devido à amplitude do tráfico de drogas no país. A nação, que possui 12 milhões de habitantes, apresenta um PIB per capita de US$ 60 mil e um IDH de 0,95, um dos mais altos do mundo.
A declaração foi feita em entrevista ao jornal britânico The Guardian nesta segunda-feira, 9. Willocx destacou que grupos mafiosos se tornaram um ‘poder paralelo’ na sociedade belga. ‘A quantia de dinheiro envolvida para influenciar, corromper e subornar pessoas é tão grande que representa um perigo real para a estabilidade de nossa sociedade’, disse o magistrado.
Os comentários de Willocx ocorreram após o tribunal de Antuérpia publicar uma carta aberta alertando sobre a expansão de organizações criminosas ligadas ao narcotráfico. A carta, assinada por um juiz anônimo, aponta que essas estruturas se tornaram uma ‘força paralela’ que desafia a polícia e o judiciário.
Antuérpia, localizada às margens do rio Escalda, abriga o segundo maior porto da Europa. Junto com o terminal de Roterdã, na Holanda, se tornou um dos principais pontos de entrada de drogas para o continente. Em 2024, ambos os portos receberam mais de 70% de toda a cocaína que entrou na Europa, segundo a Europol.
Esse alto fluxo ilegal gera um ecossistema de corrupção e coerção, com episódios de sequestro, tortura e lavagem de dinheiro. Organizações criminosas estão supostamente por trás de um plano para sequestrar um ministro belga em 2022 e foram responsáveis por uma série de ataques a tiros na capital, Bruxelas, em 2025.
O procurador-geral Guido Vermeiren, responsável pelas regiões de Antuérpia e Limburgo, afirmou: ‘Estamos nos tornando um Estado com muita corrupção e muitas ameaças’. Ele e Willocx detalharam casos que demonstram o alcance das ações criminosas. Em um dos episódios, uma organização pagou mais de 250 mil euros a um funcionário portuário para mover um contêiner.
Willocx explicou que aqueles que se recusam a colaborar sofrem represálias, como cartas e fotos de seus filhos, além de ataques em suas casas. As práticas coercitivas se estendem a agentes de segurança que são abordados para fornecer informações sobre servidores públicos, incluindo juízes, levando muitos magistrados a buscar proteção permanente.
“‘De um dia para o outro, você tem que sair de casa, deixar sua família, e ir morar em algum lugar onde ninguém sabe onde você está’, relatou Willocx.”
Os integrantes do judiciário afirmam que esse clima de insegurança influencia os juízes, que podem inventar erros processuais para evitar condenações que resultem em represálias. Willocx observou: ‘Há muita pressão sobre promotores e juízes. O que se vê é que, se continuarmos assim, muitos juízes preferirão não trabalhar em casos criminais por questões de segurança’.
Esse cenário de insegurança está inserido em um contexto maior de crise na Justiça da Bélgica, com magistrados afirmando que décadas de subfinanciamento e cortes de verbas levaram o sistema a um estado próximo do colapso. Willocx destacou que as reduções no orçamento criaram um ‘círculo vicioso’: enfraquecem o funcionamento dos tribunais e a ineficiência do judiciário justifica novos cortes.


