O Brasil atualizou, pela primeira vez em quase duas décadas, seu principal plano de enfrentamento à crise climática. A nova versão do plano nacional foi divulgada nesta semana e reposiciona o combate ao desmatamento como eixo central da estratégia, ao mesmo tempo em que admite um dado incômodo: as emissões do setor de energia devem crescer nos próximos anos.
O novo plano climático do governo de Luiz Inácio Lula da Silva projeta ações até 2035 e reafirma uma diretriz já conhecida: conter o desmatamento é a forma mais rápida e eficaz de reduzir as emissões do país. Diferentemente da maior parte das economias desenvolvidas, onde o grosso da poluição vem da queima de combustíveis fósseis, o Brasil tem uma matriz de emissões atípica. Quase metade dos gases de efeito estufa do país vem da mudança no uso da terra, especialmente da derrubada de florestas na Amazônia.
Esse perfil faz com que políticas de fiscalização ambiental, combate à grilagem e controle de queimadas tenham impacto imediato nas metas climáticas. Lula já havia prometido zerar o desmatamento ilegal até 2030, compromisso que é reiterado no novo plano.
Apesar de o Brasil ter uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo, fortemente baseada em hidrelétricas, biocombustíveis e fontes renováveis, o setor de energia ainda responde por cerca de 20% das emissões nacionais. O dado mais controverso do plano é a previsão de aumento dessas emissões até 2035, que pode variar de 1% a 44%, dependendo do cenário econômico e da expansão da demanda por energia.
Na prática, o governo aposta em um “equilíbrio climático”: as reduções obtidas com o fim do desmatamento compensariam o crescimento das emissões energéticas. Esse raciocínio, no entanto, é alvo de críticas, especialmente em um momento em que a pressão internacional se volta para a redução do uso de combustíveis fósseis.
O Brasil está entre os dez maiores emissores de gases de efeito estufa do planeta e assumiu compromissos relevantes no Acordo de Paris. A meta atualizada prevê reduzir as emissões entre 59% e 67% até 2035, em comparação com os níveis de 2005, além de alcançar a neutralidade de carbono até 2050.
Esses compromissos colocam o país sob escrutínio internacional, especialmente por seu papel estratégico na preservação de florestas tropicais e na regulação do clima global. Outro avanço do novo plano é a inclusão mais robusta de políticas de adaptação. A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, destacou que enfrentar a mudança do clima não se resume a cortar emissões, mas também a proteger populações vulneráveis.
Eventos extremos, como chuvas intensas, secas prolongadas e ondas de calor, têm se tornado mais frequentes e severos no Brasil, exigindo respostas coordenadas em áreas como infraestrutura, saúde pública e planejamento urbano.
Especialistas avaliam que o novo plano é mais abrangente do que sua versão anterior, de 2008. Ele envolve diferentes ministérios, amplia o foco para além da mitigação e começa a tratar da implementação prática das políticas. No entanto, organizações independentes apontam lacunas importantes.
O Observatório do Clima elogiou a estrutura do plano, mas criticou a falta de ambição na transição energética. Para o grupo, o Brasil ainda não apresenta uma estratégia clara para reduzir de forma consistente o uso de combustíveis fósseis, um ponto considerado essencial para limitar o aquecimento global a 1,5°C, meta central da ciência climática.
O plano revela, em última instância, um dilema estrutural: o Brasil tem uma vantagem comparativa na agenda climática por causa de suas florestas, mas corre o risco de depender excessivamente dessa vantagem. Ao apostar quase tudo no fim do desmatamento, o país adia decisões mais difíceis sobre seu modelo energético e industrial.
A questão que se impõe é se essa estratégia será suficiente em um mundo que caminha, ainda que lentamente, para uma economia de baixo carbono.


