Faltando poucos dias para a cerimônia do Oscar, o Brasil vive um clima de torcida coletiva semelhante ao de uma final de Copa do Mundo. Bares, cinemas e cineclubes em várias cidades do país estão organizando transmissões da premiação, bolões, quizzes e sessões especiais para acompanhar a 98ª edição da maior noite do cinema mundial no domingo (15).
Enquanto Hollywood trata o Oscar como uma sofisticada engrenagem de campanhas e estratégias de estúdio, no Brasil a premiação ganhou novos contornos. Há memes nas redes sociais, correntes de torcida e uma mobilização espontânea de cinéfilos que lembra o que aconteceu no ano passado com ‘Ainda Estou Aqui’, que recebeu o Oscar na categoria de melhor filme internacional. Agora, o centro dessa expectativa é ‘O Agente Secreto’, de Kleber Mendonça Filho, que chega a 2026 com indicações de Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Elenco e Melhor Ator para Wagner Moura.
Os números ajudam a explicar o entusiasmo. Mesmo competindo com superproduções de Hollywood, o filme brasileiro lidera a bilheteira entre os indicados ao Oscar, com 2.464.071 ingressos vendidos e mais de R$ 50 milhões arrecadados, segundo dados da FILME B. Entre os dez concorrentes ao prêmio principal da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos, é também o longa de menor orçamento, o que torna sua trajetória ainda mais simbólica.
Em várias cidades brasileiras, a premiação será acompanhada coletivamente, um fenômeno que vem crescendo nos últimos anos. No Rio de Janeiro, o produtor e exibidor Cavi Borges, do Grupo Estação e da Cavideo, prepara uma grande festa cinéfila para a transmissão. O evento começou há mais de duas décadas de forma quase improvisada. ‘Eu faço essa transmissão ao vivo do Oscar há 25 anos. Começou lá na Cobal do Mytown, quando a Cavideo estava nascendo. Era uma reunião pequena, cinéfila mesmo’, disse Borges.
Nos últimos anos, o evento ganhou proporções inesperadas. ‘No ano passado, foi o ápice: quase duas mil pessoas. Cinco salas lotadas e um telão no saguão. Quando o Brasil ganhou o Oscar, o cinema tremeu. Foi histórico.’ Para 2026, a expectativa é ainda maior, com bolão de apostas, quiz cinéfilo, concurso de sósias de Wagner Moura e transmissão simultânea em salas do Estação Net Rio e do Estação Net Botafogo.
Borges observa que esse movimento ajuda a revelar algo curioso: ‘O Brasil produz cerca de 300 filmes por ano, mas o grande público conhece quatro ou cinco. Quando as pessoas entram na sala de cinema por causa de um filme brasileiro que virou fenômeno, elas descobrem que existe muito mais.’ Dirigido por Kleber Mendonça Filho e estrelado por Wagner Moura, ‘O Agente Secreto’ tornou-se um caso raro: um filme autoral que conseguiu dialogar com o público sem abrir mão de sua identidade estética.
O longa já ultrapassou 2,4 milhões de espectadores, tornando-se o filme mais visto no Brasil entre todos os indicados ao Oscar deste ano. Nas redes sociais, Kleber tem demonstrado uma mistura de celebração e responsabilidade diante da mobilização nacional. O diretor agradeceu recentemente a ‘energia incrível’ do público brasileiro e destacou a importância das políticas públicas de incentivo ao audiovisual.
“‘A presença do filme no Oscar representa uma forma de soft power brasileiro’, afirmou Kleber, referindo-se à capacidade do país de projetar sua cultura e identidade no palco global.”
Entre todas as categorias, especialistas apontam uma em que o Brasil aparece particularmente forte: a nova categoria de Melhor Direção de Elenco, criada pela Academia em 2024. O brasileiro Gabriel Domingues foi indicado pelo trabalho em ‘O Agente Secreto’, responsável pela seleção de mais de 60 atores, combinando nomes consagrados e novos.
Apesar do entusiasmo brasileiro, a disputa continua aberta. Veículos especializados americanos apontam ‘Pecadores’, de Ryan Coogler, como possível grande vencedor da noite. Publicações ligadas ao cinema independente foram mais generosas com o longa brasileiro, colocando ‘O Agente Secreto’ no topo do ranking entre os indicados a Melhor Filme.
Enquanto isso, o Brasil torce por Wagner Moura, que chega à corrida com enorme capital simbólico após sua vitória no Globo de Ouro. Embora os prognósticos internacionais sejam cautelosos, no Brasil o sentimento é de mobilização afetiva em torno do filme, com muitos portais, canais de cinema, podcasts e perfis nas redes sociais acompanhando intensamente a temporada de premiações.


