A guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã está gerando incertezas na economia global. A alta no petróleo, provocada pelo bloqueio do Estreito de Ormuz pela Guarda Revolucionária iraniana e pela redução na oferta dos países do Golfo Pérsico, já faz analistas preverem uma inflação generalizada como consequência do conflito.
A crise também afeta a oferta de fertilizantes, uma vez que cerca de um terço desse insumo passa pelo Estreito de Ormuz. O Irã é um dos maiores exportadores de ureia, um fertilizante nitrogenado amplamente utilizado na agricultura mundial. O impacto nos preços ainda é incerto, mas já se observa uma alta nas commodities nas últimas semanas.
O índice CRB, que mede as matérias-primas básicas como petróleo e alimentos, atingiu a maior cotação desde 2011 na última segunda-feira, 9 de março. Especialistas acreditam que essa tendência deve se manter enquanto o conflito perdurar.
O Brasil, sendo o maior produtor de alimentos do mundo e o sexto maior produtor de petróleo bruto, pode se beneficiar desse cenário. O país tem uma balança comercial fortemente dependente de produtos primários, e um aumento nos preços desses itens pode gerar um novo boom das commodities, semelhante ao que ocorreu entre o início do século 21 e a década de 2010.
Entretanto, especialistas alertam que o contexto atual é diferente. O fechamento do Estreito de Ormuz impacta diretamente a oferta de petróleo, gás natural e fertilizantes, diferentemente do boom anterior, que foi impulsionado pelo crescimento econômico da China, que registrou altas acima de 9% entre 2002 e 2011.
A China é o principal parceiro comercial do Brasil, comprando 80% da soja brasileira, 56% do minério de ferro e 45% do petróleo bruto. Um bloqueio prolongado no Estreito de Ormuz pode pressionar os preços das commodities agrícolas devido ao aumento nos custos de combustíveis e fertilizantes.
“”Para a China, por exemplo, o fornecimento de grãos do Brasil deverá ficar no mesmo patamar. Só que, se houver alta dos preços, isso gera uma maior receita”, explica Francisco Américo Cassano, professor do curso de Relações Internacionais da Universidade Santa Cecília.”
O professor Cassano também observa que, embora não se trate de um novo boom, pode haver um aumento nas exportações. O início do plantio no Hemisfério Norte nos próximos meses será crucial, pois pode gerar uma redução na oferta e redirecionar compras para o Brasil.
Jorge Arbache, professor de economia da Universidade de Brasília (UnB), analisa que o Brasil, por estar fora da região de conflito, pode se tornar uma opção de investimento. “O país se torna uma opção de investimento de uma forma geral, exatamente porque está longe das tensões”, afirma.
Arbache também ressalta que, mesmo após o fim da guerra, os preços de energia e alimentos podem continuar altos devido às mudanças climáticas. No curto prazo, no entanto, o aumento da percepção de risco pode impactar o risco de crédito e o risco-país, afetando principalmente os países emergentes.
“”Os preços tendem a subir também porque o produtor está recebendo mais lá fora e isso impacta diretamente os preços internos, gerando mais inflação”, afirma Cassano.”
As incertezas geradas pela guerra no Irã podem continuar a afetar decisões de investimento, mesmo que o conflito termine em breve. Arbache observa que os danos causados em plantas energéticas no Golfo Pérsico podem levar investidores a reduzir aportes no Brasil. No entanto, ele acredita que, a longo prazo, o Brasil pode se beneficiar, aumentando a atividade econômica e gerando mais empregos.
“”É uma guerra com impactos generalizados por causa da globalização. É uma guerra que mirou um alvo e está acertando em vários outros, com múltiplas complicações econômicas”, finaliza Arbache.”

