Uma mulher de 23 anos chegou ao pronto-socorro com falta de ar progressiva e palpitações que duravam quase três semanas. Sem doenças prévias conhecidas, ela parecia ser um caso típico de embolia pulmonar, hipótese reforçada por exames laboratoriais alterados. No entanto, a tomografia descartou o coágulo no pulmão e revelou uma massa de cerca de 6 centímetros ocupando o átrio esquerdo do coração.
O diagnóstico final foi sarcoma intimal cardíaco, um tipo raro e agressivo de câncer que se origina no próprio coração. Segundo relato publicado na revista científica Case Reports and Case Series in Cardiology Journal (CRCSCJ), a paciente foi operada em caráter de urgência. A cirurgia retirou parte do átrio esquerdo para remover o tumor, e o exame anatomopatológico confirmou um sarcoma de alto grau.
Cinco meses após a cirurgia, já em acompanhamento oncológico, exames detectaram metástases cerebrais. O caso ilustra um paradoxo da medicina: embora o coração seja o órgão símbolo da vida, o câncer que nasce nele é extremamente raro e pouco conhecido.
Os tumores cardíacos podem ser classificados como primários, quando se originam no coração, e secundários, quando vêm de outro órgão. Os tumores secundários são mais comuns, sendo de 20 a 130 vezes mais frequentes do que os primários, conforme explica o cirurgião cardiovascular Ricardo Katayose, da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo. A incidência de tumores primários em estudos de necrópsia varia de 0,001% a 0,03%.
Os sintomas de câncer de coração são inespecíficos, incluindo falta de ar, palpitação, fraqueza, dor torácica e desmaio. Muitas vezes, o paciente apresenta um quadro semelhante à insuficiência cardíaca, como ocorreu com a jovem de 23 anos, cujo tumor causava obstrução da válvula mitral e comprometia a circulação dentro do coração.
O diagnóstico de tumores cardíacos depende de exames de imagem, como ecocardiograma, ressonância magnética e, em casos selecionados, cateterismo. Muitas vezes, o diagnóstico definitivo só é obtido após a cirurgia, com análise do tecido retirado.
A principal linha de tratamento é a cirurgia, que é de altíssima complexidade. Dependendo do subtipo e da presença de metástases, pode haver indicação de quimioterapia complementar. O prognóstico depende da possibilidade de retirar completamente o tumor com margem de segurança, o que aumenta a chance de que células microscópicas também sejam removidas.
Os dados sobre prognóstico são limitados pela raridade da doença. A sobrevida média descrita na literatura médica varia entre 3 e 12 meses após o diagnóstico em casos malignos, com menos de 15% dos pacientes sobrevivendo além de cinco anos. Não existe exame de rastreamento para câncer de coração; a investigação geralmente começa quando sintomas persistentes não encontram explicação em causas mais comuns.


