Pesquisadores da Universidade de Kyushu, no Japão, conseguiram tornar um cérebro vivo temporariamente transparente, permitindo a observação de neurônios em funcionamento em tempo real. O estudo foi publicado na revista científica ‘Nature Methods’.
A técnica utiliza a albumina, uma proteína comum no sangue humano, para aumentar a transparência do tecido cerebral. Isso possibilita a visualização de estruturas profundas do cérebro sem interromper sua atividade normal. ‘Esta é a primeira vez que a transparência de tecidos é alcançada sem alterar sua biologia’, afirmou Takeshi Imai, professor da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade de Kyushu e autor sênior do estudo.
O cérebro é difícil de observar devido à sua opacidade. A luz se espalha ao atravessar diferentes estruturas celulares, dificultando a visualização de atividades neuronais em camadas profundas. Os cientistas comparam a situação a bolinhas de vidro que desaparecem em óleo, onde a luz passa sem se espalhar devido a propriedades ópticas semelhantes.
Para resolver esse problema, a equipe testou diversas substâncias até encontrar a albumina, que ajusta as propriedades ópticas sem prejudicar as células. ‘Eu testei três ou quatro vezes antes de acreditar’, disse Shigenori Inagaki, primeiro autor do estudo. ‘De todas as coisas possíveis, nunca imaginamos que a solução viria disso.’
Ao adicionar albumina ao meio onde o tecido cerebral está imerso, os cientistas criaram um líquido especial chamado SeeDB-Live, que torna o tecido cerebral temporariamente mais transparente. Em experimentos, fatias de cérebro de camundongos ficaram transparentes em cerca de uma hora, permitindo a observação de neurônios mais profundos, que antes estavam ocultos.
Os sinais luminosos dessas células ficaram até três vezes mais brilhantes, facilitando a visualização das conexões neuronais. O efeito é temporário, pois a solução é eliminada após algumas horas, permitindo que o tecido retorne ao estado original. Isso possibilita a observação repetida do mesmo animal ao longo do tempo.
Os pesquisadores acreditam que essa técnica pode abrir novas possibilidades para estudar o funcionamento do cérebro em tempo real, ajudando a entender como circuitos neurais processam informações e controlam o comportamento. Além disso, há interesse em aplicar o método em organoides cerebrais, utilizados em pesquisas sobre doenças e no desenvolvimento de medicamentos. ‘A albumina é abundante no sangue e altamente solúvel, o que a torna adequada para esse tipo de aplicação’, explicou Imai.


