O golpe de 1953 contra o primeiro-ministro Mohammad Mossadegh é frequentemente mencionado em crises no Irã como um exemplo da traição ocidental. Este evento é utilizado para argumentar que potências estrangeiras não podem ser confiáveis, sugerindo que a República Islâmica é, no pior dos casos, um mal necessário.
Entretanto, o papel crucial de dois ayatollahs, Abol-Qasem Kashani e Mohammad Behbahani, que foram mentores de Ayatollah Ruhollah Khomeini, é raramente destacado. Esses clérigos não apenas sofreram com o golpe, mas também contribuíram para sua realização.
A atual situação da República Islâmica é crítica, com a morte do Líder Supremo e uma sucessão contestada, enquanto as ruas estão inquietas. Especialistas analisam cenários em que protestos civis podem levar a uma divisão nas forças de segurança, como a Guarda Revolucionária e o exército regular.
Historicamente, o clero iraniano não tem sido ideologicamente unificado. Desde a Revolução Constitucional até a era de Mossadegh e a revolução de 1979, os clérigos demonstraram mais interesse em estar do lado vencedor do que em princípios políticos fixos. A morte de Ali Khamenei pode oferecer uma oportunidade para que elementos dentro do establishment se afastem do sistema que ele construiu, caso percebam que a maré está mudando.
A narrativa padrão do golpe de 1953 envolve a CIA, o MI6 e um xá fraco. Embora isso seja verdade, Kashani e Behbahani frequentemente são omitidos. Kashani, que começou como aliado de Mossadegh, mobilizou redes de mesquitas em apoio à nacionalização do petróleo, mas acabou denunciando Mossadegh como um ditador.
Behbahani, por sua vez, apoiou o xá e, segundo evidências, aceitou dinheiro da CIA para organizar manifestações a favor do palácio. Os serviços de inteligência ocidentais forneceram o financiamento, enquanto os oficiais do xá forneceram os tanques. Os mullahs deram ao golpe a legitimidade religiosa necessária.
O clero já havia mudado de lado em momentos críticos antes. Durante a Revolução Constitucional, alguns clérigos apoiaram demandas por um parlamento, enquanto outros se opuseram. Na década de 1950, muitos clérigos viam a monarquia Pahlavi como um parceiro gerenciável, enquanto Mossadegh representava uma ameaça.
O legado de Khomeini, que observou esses eventos, foi moldado por essa dinâmica. Ele aprendeu que nacionalistas seculares que tentavam marginalizar o clero acabariam do lado errado. Em 1979, Khomeini e seus aliados transformaram a situação, liderando uma coalizão anti-xá e estabelecendo um regime que consolidou o poder clerical.
A morte de Khamenei desestabilizou o equilíbrio existente, forçando o clero a confrontar questões sobre a sustentabilidade do regime. O processo formal de escolha de um novo líder supremo passa pela Assembleia de Especialistas, que, embora envolvida em patronagem, é um importante indicador da direção política do Irã.
Nas próximas semanas, diversos cenários podem se desenrolar, dependendo das escolhas da Guarda Revolucionária. No entanto, o que acontece nas seminaristas de Qom e nos escritórios do Conselho Guardião também é crucial. Se os clérigos decidirem que o regime não pode ser salvo, podem começar a se distanciar das medidas repressivas e até apoiar reformas que os mantenham alinhados com a nova ordem.


