A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) enviou um ofício ao Ministério de Minas e Energia (MME) solicitando a elevação da mistura obrigatória de biodiesel no diesel para B17. O pedido ocorre em meio à escalada do conflito no Oriente Médio e relatos de pressão sobre os custos no setor agrícola.
O presidente da CNA, João Martins da Silva Júnior, destacou que, após o início dos conflitos, o preço do petróleo bruto Brent subiu para US$ 84, acumulando alta de até 20% em relação ao final de fevereiro. Ele afirmou:
““No novo quadro da geopolítica mundial, o avanço imediato para 17% (B17) surge como medida razoável para a realidade nacional.””
Em entrevista, o diretor técnico da CNA, Bruno Lucchi, mencionou que produtores rurais já estão enfrentando aumentos significativos no preço do diesel, mesmo sem reajuste oficial. Ele relatou:
““Recebi hoje pela manhã relatos de produtores apontando aumento de até R$ 1 no preço do diesel. Isso é um valor desproporcional pelo período.””
Lucchi também comentou sobre a possibilidade de especulação no mercado, afirmando que isso pode gerar uma demanda artificial. Ele comparou a situação atual com a pandemia, quando a expectativa de falta de produtos levou a compras em excesso.
Diante desse cenário, a CNA propõe aumentar a mistura de biodiesel no diesel como forma de mitigar a volatilidade do petróleo. Lucchi explicou:
““Hoje ela está em 15%. Estava previsto um aumento agora para 16%, mas isso não aconteceu. Em função do conflito, nós já estamos solicitando que se eleve diretamente para 17%.””
Ele acredita que essa medida pode ajudar a evitar impactos similares aos observados em crises anteriores, como a guerra entre Rússia e Ucrânia, que resultou em um aumento de cerca de 23% no diesel no Brasil.
Lucchi também ressaltou que o momento atual da produção agrícola brasileira, com uma colheita recorde de soja, favorece a proposta. Ele afirmou:
““Aumentar essa mistura do biodiesel no diesel não vai onerar o consumidor brasileiro. Pelo contrário, pode até reduzir um pouco os possíveis aumentos de preços.””
A proposta será apresentada ao governo antes da próxima reunião do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), agendada para a próxima semana. A CNA observa que, embora esteja atenta aos impactos da guerra sobre o comércio internacional, o principal risco para o agro brasileiro no curto prazo é o aumento dos custos de produção, especialmente do diesel.
Lucchi alertou que a alta do petróleo já afeta a logística do país, com o barril subindo de cerca de US$ 70 para US$ 84. Ele também mencionou a preocupação com os fertilizantes nitrogenados, cuja produção é concentrada na região do Golfo, onde já houve um aumento de 33% no preço da ureia no Brasil desde o início do conflito.
Apesar da pressão sobre os custos, a CNA acredita que o impacto direto sobre as exportações brasileiras será limitado no curto prazo. Lucchi informou que o comércio do Brasil com o Irã foi de cerca de US$ 3 bilhões em 2025, com 99% composto por produtos do agronegócio, sendo o milho o principal produto exportado.
Ele concluiu que, embora o volume maior de exportações para o Irã ocorra entre setembro e janeiro, a evolução do conflito deve ser monitorada de perto devido aos possíveis efeitos sobre energia, fertilizantes e logística global.

