O conflito no Irã já começa a gerar impactos nos preços globais de petróleo e gás. O regime iraniano, apesar de sua inferioridade militar, utiliza sua capacidade de afetar a economia global, explorando a dependência mundial dessas fontes de energia.
Após os bombardeios realizados pelos Estados Unidos e Israel, o Irã atacou instalações petrolíferas em países árabes vizinhos, resultando em interrupções na produção do Iraque, Arábia Saudita e Catar. Além disso, o regime iraniano atingiu quatro navios-tanque no Golfo Pérsico e anunciou o fechamento do Estreito de Ormuz, que é responsável por 20% das exportações globais de petróleo e gás.
Embora o Irã não consiga fechar completamente o Estreito de Ormuz, a travessia pela região se tornou arriscada, levando empresas de seguros a aumentar os prêmios ou cancelar contratos. O frete marítimo quintuplicou, afetando especialmente a China, maior cliente da região. Alternativas para desviar do Estreito, como o oleoduto Leste-Oeste da Arábia Saudita e o gasoduto do Catar para Omã, não são suficientes para atender à demanda.
O percurso pelo Mar Vermelho também é considerado perigoso devido a ataques de milícias hutis, aliadas do Irã. Como resultado, várias companhias marítimas estão evitando o Canal de Suez e desviando seus navios para o sul da África, pelo Cabo da Boa Esperança, um trajeto mais longo e caro.
O ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, prometeu tomar medidas para restabelecer o trânsito de navios pelo Estreito de Ormuz, oferecendo garantias financeiras e escolta militar. Contudo, ainda não está claro se essas ações serão suficientes para acalmar as preocupações de investidores e importadores.
Na última terça-feira, 3 de março, o preço do barril Brent alcançou 85 dólares, o maior valor desde julho de 2024, embora ainda abaixo dos 133 dólares registrados em março de 2022, após a invasão da Ucrânia pela Rússia. A corretora de investimentos Warren estima que, se o barril se estabilizar em 90 dólares, isso adicionaria 0,5 ponto percentual à inflação anual brasileira.
A valorização do dólar, que passou de 5,20 reais para cerca de 6 reais, também contribuiria com mais 0,5 ponto percentual na inflação. Luis Felipe Vidal, chefe de estratégia macroeconômica da Warren, afirma: “Nesse cenário, com petróleo mais caro e o real desvalorizado, pode-se ter um acréscimo de 1 ponto percentual à inflação, reduzindo bastante as expectativas de corte de juros por parte do Banco Central.”
O setor agropecuário brasileiro deve ser o mais afetado por um conflito prolongado, com custos e riscos de transporte prejudicando as exportações para o Oriente Médio. O economista Maurício Nakahodo alerta que isso pode reduzir as vendas de carnes, milho e soja, além de encarecer fertilizantes importados do Irã.
O preço do diesel também deve aumentar, encarecendo o transporte interno no Brasil, que já estava defasado em relação aos preços internacionais. A alta do petróleo pressiona a Petrobras a reajustar os preços, embora a empresa tenha demorado historicamente para repassar aumentos.
Embora a Petrobras possa se beneficiar da alta do petróleo, a empresa não teria condições de aumentar sua produção rapidamente para atender à demanda, devido às dificuldades de escoamento da produção do Oriente Médio. Uma guerra prolongada no Irã pode, portanto, afetar significativamente o comércio e a economia globais.

