Às margens do Rio Piracicaba, drones sobrevoam lavouras experimentais e estufas de pesquisa. No campus da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”, pesquisadores analisam sementes em laboratório, enquanto jovens empreendedores discutem algoritmos para monitorar plantações por satélite e desenvolvem bioinsumos que substituem pesticidas químicos. Essa cena ilustra a transformação do agronegócio brasileiro.
Em Piracicaba, no interior de São Paulo, ciência, tecnologia e empreendedorismo coexistem em um ecossistema que atrai empresas, investidores e pesquisadores de várias partes do mundo. A cidade é chamada de “Vale do Silício do agro brasileiro”, em referência ao Silicon Valley, na Califórnia.
Nos últimos dez anos, Piracicaba se consolidou como um dos principais centros de desenvolvimento de tecnologia agrícola da América Latina. Agora, esse movimento se expande com a criação do Corredor de Inovação Agropecuária de São Paulo, que busca integrar polos científicos e tecnológicos do interior paulista em uma rede voltada à inovação no campo.
Inspirado em modelos internacionais, o projeto conecta universidades, centros de pesquisa, parques tecnológicos, startups e empresas do agronegócio em um território que abrange centenas de quilômetros. O objetivo é criar um ambiente de cooperação científica e tecnológica, acelerando o desenvolvimento de soluções para um setor estratégico da economia brasileira.
O Brasil é um dos maiores produtores e exportadores de alimentos do mundo, liderando mercados como soja, café, açúcar, suco de laranja e carnes. O agronegócio representa cerca de um quarto do Produto Interno Bruto nacional e uma parte significativa das exportações do país. Em São Paulo, o setor representa aproximadamente 15% do PIB paulista.
O Corredor de Inovação Agropecuária integra organizações como a Embrapa, a Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios e o Instituto Pecege, além de ambientes de inovação como o Parque Tecnológico de Piracicaba e o Supera Parque de Inovação e Tecnologia. A governança do corredor é compartilhada entre essas instituições, com a operação executiva a cargo do Instituto Pecege.
Pedro Chamochumbi, diretor-presidente do parque e secretário-executivo do corredor, afirmou que o projeto surgiu da percepção de que o estado já possuía diversos ambientes de inovação, mas que funcionavam de forma isolada. “O grande objetivo do Corredor Agro é oferecer suporte e acesso às agtechs em um ambiente ampliado”, disse Chamochumbi.
O corredor conecta centros de pesquisa e inovação ao longo de cerca de 400 quilômetros no interior paulista, incluindo Piracicaba, Campinas, Jaguariúna, São Carlos, Ribeirão Preto e São José dos Campos. Essa conexão visa acelerar o desenvolvimento de soluções tecnológicas aplicadas à produção agropecuária.
O AgTech Valley, que começou em Piracicaba, reúne centenas de startups, centros de pesquisa e empresas dedicadas à inovação agrícola. Segundo levantamento da Embrapa, o estado de São Paulo concentra cerca de 860 startups voltadas ao agronegócio, representando aproximadamente 40% de todas as agtechs brasileiras.
Ronald Dalio, um dos empreendedores da região, desenvolve tecnologias baseadas em metabólitos de microrganismos para combater doenças agrícolas. Ele acredita que a nova geração de bioinsumos pode revolucionar a agricultura. “Essas moléculas podem ser metabólitos de microrganismos, peptídeos, proteínas e até RNA”, afirmou Dalio.
As startups recebem apoio técnico e estratégico no parque tecnológico, com orientação baseada em metodologias internacionais de inovação. Alexandre Barreto, diretor de projetos do Parque Tecnológico de Piracicaba, explicou que a missão é entender em que estágio o projeto do empreendedor se encontra e orientar sobre recursos financeiros e parcerias necessárias.
O crescimento do ecossistema depende também da presença de investidores especializados em inovação, que atuam como investidores-anjo. Joaquim Henrique da Cunha Filho, que avalia startups do agronegócio, destacou o potencial do setor e a importância de focar no agro.
Nem todas as inovações surgem de startups; muitas vêm de décadas de pesquisa acadêmica. O agrônomo Paulo Machado, fundador da Clínica do Leite, desenvolveu métodos para detectar adulterações no leite, analisando cerca de 60% da produção brasileira.
O ecossistema de inovação agrícola de Piracicaba já atrai atenção internacional, com delegações estrangeiras visitando a região. Ronald Dalio comentou que o Brasil está começando a exportar tecnologia, deixando de ser apenas exportador de commodities.


