A relação entre corvos e lobos, que inspira mitos desde a antiguidade, foi analisada em um novo estudo publicado na revista Science. A pesquisa, realizada no Parque Nacional de Yellowstone, nos Estados Unidos, acompanhou 69 corvos e 20 lobos ao longo de dois anos e meio.
Os resultados revelaram que os corvos não apenas seguem os lobos, mas também criam mapas mentais detalhados das áreas de caça. Eles memorizam padrões de abate e revisitam locais onde os lobos costumam derrubar presas, como veados, alces e bisões. “Os corvos não estavam apenas seguindo os lobos — estavam registrando padrões e criando mapas mentais para apoiar futuras buscas por alimento”, explicou Matthias-Claudio Loretto, autor principal do estudo.
Alguns corvos chegaram a voar até 160 quilômetros em um único dia em busca de carcaças. John Marzluff, coautor da pesquisa, comentou: “Era uma área muito maior do que eu jamais imaginei”. Yellowstone foi escolhido por ser um ambiente aberto, facilitando a observação a longas distâncias, essencial para o monitoramento.
O estudo também revelou um desequilíbrio na relação entre as espécies. Apesar da narrativa de simbiose, os corvos se beneficiam mais. Um único corvo pode carregar cerca de 220 gramas de carne, e em grupos, conseguem fazer um bisão inteiro desaparecer rapidamente. Os lobos, por sua vez, já foram vistos espantando as aves ou designando um membro da alcateia para proteger a carcaça. “Os corvos tiram muito mais proveito desse acordo do que os lobos”, admitiu Marzluff.
A inteligência dos corvos impressiona, pois em cérebros do tamanho de um polegar humano, eles armazenam informações sobre milhares de quilômetros quadrados de território. “A cognição animal na natureza às vezes pode ser mais sofisticada do que tendemos a supor”, concluiu Loretto. “Nós os subestimamos.”

