O cientista político Creomar de Souza, CEO da consultoria Dharma Politics e professor da Fundação Dom Cabral, analisa a crise institucional enfrentada pelo STF (Supremo Tribunal Federal) e as preocupações do governo Lula em relação às eleições de 2026.
De Souza afirma que a Corte requer sinais claros de autocrítica e sugere que uma possível saída seria discutir mudanças internas, incluindo a permanência dos ministros. Ele destaca:
““Creio que o caminho para o STF seria, em algum sentido, dar sinalizações muito claras de que a Corte não tem problemas em cortar na própria carne, propondo algum tipo de reforma no que diz respeito à permanência dos ministros no próprio colegiado.””
O analista observa que a dificuldade de reação institucional está ligada à fragmentação interna entre os magistrados. Ele explica que a dinâmica do Supremo favorece um modelo em que cada ministro atua de forma autônoma:
““A gente pode identificar de maneira muito visível a divisão de uma Corte que se acostumou a cada um dos seus ministros, em algum sentido, ser o próprio STF, uma dificuldade de rumar na direção de um consenso.””
De Souza também ressalta que o presidente do tribunal tem um papel institucional, mas não possui autoridade hierárquica sobre os demais ministros:
““O presidente do STF não é chefe de nenhum dos outros ministros. Ele é uma figura que faz a representação institucional da Corte perante a sociedade e algumas questões que envolvem o plenário.””
Sobre o cenário político, o cientista político expressa preocupação em relação ao governo Lula e seus aliados diante da antecipação do debate eleitoral de 2026. Ele afirma:
““Eu creio que Lula, assim como seus principais apoiadores, tem motivo para preocupação.””
De Souza aponta que o governo enfrenta dificuldades estratégicas em seu processo decisório, mencionando que:
““Esse é um governo que, consistentemente, deu provas de que o seu processo decisório tem uma série de ‘curtos-circuitos’, fazendo com que decisões sejam tomadas de maneira equivocada em momentos equivocados.””
Ele cita episódios recentes que fortaleceram a narrativa da oposição, como a ida de Lula à Marquês de Sapucaí e o aumento do imposto de importação sobre mais de mil produtos. Após a repercussão negativa, o governo recuou parcialmente da decisão. De Souza comenta:
““O governo fez nesse início de ano a sua parte para facilitar a vida do principal candidato de oposição [em relação a Flávio Bolsonaro].””
Outro ponto sensível é o impacto político de temas relacionados à corrupção, como no caso do Banco Master. De Souza observa que o governo não conseguiu desenvolver uma estratégia eficaz para se distanciar das investigações:
““Esse me parece ser um elemento em que o governo não conseguiu até aqui encontrar nenhum tipo de estratégia ou instrumento retórico que, efetivamente, dê a oportunidade de dizer: ‘olha, nós não temos relação ou correlação direta com isso’.””
Apesar das dificuldades, o cientista político acredita que o cenário pode mudar dependendo da reação do governo:
““O dilema é saber se essa preocupação se transforma em desespero ou se ela é apenas um elemento que leva a uma correção de rumos na estratégia.””

