O cenário para a reeleição presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva nesta segunda quinzena de março de 2026 é complicado. As pesquisas dos últimos doze meses mostram uma rejeição eleitoral recorde, que se mantém na faixa dos 40%, comparável à do adversário Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal.
Lula enfrenta dificuldades semelhantes às que Jair Bolsonaro encontrou em março de 2022, sem ter preparado o governo para uma campanha de reeleição afetada pelos danos colaterais de uma guerra. A invasão da Ucrânia surpreendeu o governo brasileiro, enquanto a guerra contra o regime do Irã era previsível desde meados do ano passado.
Sem um plano coerente e consistente, Lula começa a enfrentar dificuldades para mitigar os efeitos da alta de preços do petróleo, que aumentou aproximadamente 60% nas últimas quatro semanas. A percepção de incertezas sobre as escolhas do governo em um calendário eleitoral marcado pelos efeitos da guerra já provocou um terremoto no mercado financeiro.
Entre segunda e terça-feira (17/3), o Tesouro Nacional gastou cerca de R$ 43 bilhões na recompra de títulos públicos, uma tentativa sem precedentes de conter apostas em uma escalada de juros devido à alta do petróleo. A expectativa é de aumento dos preços do diesel, que representa quase 40% dos custos do frete rodoviário em uma economia dependente de caminhões.
O aumento do custo do diesel já se reflete na especulação em parte dos 60 mil postos de abastecimento. O recém-anunciado corte de impostos federais deve influenciar o balanço financeiro da Petrobras e de outras empresas importadoras de combustíveis, mas não deve impedir os efeitos corrosivos da guerra no bolso dos eleitores. Lula afirmou: “no bolso do motorista, no bolso do caminhoneiro; e, não chegando ao bolso do caminhoneiro, não vai chegar ao prato de feijão, à salada do alface, da cebola e à comida que o povo mais come”.
Essas circunstâncias complicam ainda mais a campanha de reeleição. A expectativa de mais inflação de alimentos se soma ao fato de que 53% dos eleitores se queixam de que a renda pessoal e familiar não acompanha a alta dos preços, segundo pesquisas divulgadas pela Quaest. Além disso, há a possibilidade de confusão no sistema nacional de transporte de cargas devido a mobilizações de empregados e empresários donos de frotas de caminhões, com o governo como alvo dos protestos.
Se Lula telefonasse ao ex-presidente Michel Temer, poderia perguntar sobre a experiência com o bloqueio das estradas no ano eleitoral de 2018. No entanto, essa conversa é improvável, pois predominam idiossincrasias. Lula também poderia contatar Marcio França, que governava São Paulo durante a crise e atualmente é ministro do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte. Coincidência ou não, após o tumulto rodoviário, França se tornou o primeiro governador paulista derrotado em uma tentativa de reeleição.


