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Elefantes fantasmas de Angola se escondem em terras remotas

Amanda Rocha
Tempo: 5 min.

O povo Nkangala, do sudeste de Angola, possui uma história de origem que remonta a um pequeno elefante que se afastou da manada e se dirigiu ao rio Quembo. Às margens do rio, o elefante começou a arrancar a própria pele, e um caçador que observava a cena ajudou o animal, do qual surgiu uma mulher. Os Nkangala se veem como filhos de elefantes e consideram-se os guardiões desse animal sagrado.

Por décadas, os Nkangala têm protegido o que chamam de fantasmas. A guerra civil de 27 anos, que começou em 1975, tornou impossível a exploração das remotas terras altas de Angola, uma região vasta e em grande parte desabitada, do tamanho da Inglaterra. Esse cenário se tornou ideal para o maior animal terrestre do mundo se esconder.

O explorador sul-africano Steve Boyes sonhava em encontrar essa manada há muito tempo. Há cerca de uma década, ele começou a se aventurar pela região, instalando 180 câmeras de monitoramento e sensores de movimento, acústicos e térmicos, além de sobrevoar a área de helicóptero. Contudo, nenhum elefante foi avistado, tornando-se uma obsessão para Boyes.

““É quase como a busca pela baleia branca de ‘Moby Dick’”, disse o aclamado diretor alemão Werner Herzog, que fez de Boyes e sua busca o tema de seu mais recente filme.”

O documentário “Elefantes Fantasma” acompanha a expedição de Boyes em 2024 para encontrar a mítica manada de Angola. Herzog narra a história do explorador e de uma equipe de rastreadores KhoiSan de Angola e Namíbia, que alcançaram o que a tecnologia não conseguiu.

Após anos de busca, Boyes finalmente encontrou os elefantes e agora sua missão é protegê-los. O filme de Herzog começa no Museu Nacional de História Natural do Smithsonian, em Washington, D.C., onde Boyes encontra “Henry”, os restos mortais de um elefante macho de 4 metros de altura e 11 toneladas, o maior já registrado, que foi morto em 1955.

Boyes levantou a hipótese de que Henry pode ser um ancestral da atual população de elefantes fantasmas. Ele já havia passado muitos meses explorando as terras altas de Angola, conhecidas na língua local como “Lisima lya Mwono”, a Fonte da Vida, de onde flui o rio Okavango.

As condições de acesso são desafiadoras, com helicópteros incapazes de pousar e carros limitados. Boyes relatou que encontrou pegadas de elefante, mas não conseguiu avistá-los. Após sete anos de estudos, uma armadilha fotográfica capturou imagens noturnas de uma elefanta, provando sua existência.

A expedição de 2024 teve como objetivo observar os elefantes pessoalmente e coletar amostras para entender a genética da população isolada. Boyes e a etnobióloga angolana Kerllen Costa recrutaram três rastreadores da Namíbia. Herzog se juntou à equipe como consultor, mas logo se tornou parte da filmagem.

O grupo estabeleceu contato com líderes dos reinos luchazi, incluindo os Nkangala, que permitiram a entrada em seu território com a condição de que uma equipe de caçadores do rei os acompanhasse. Após meses de busca, a expedição estava prestes a falhar, e Boyes admitiu ter perdido a esperança.

Porém, ao amanhecer, um rastreador seguiu os rastros deixados pelos caçadores e, após duas horas, eles avistaram um touro. Boyes descreveu o elefante como tendo cerca de 3,6 metros de altura, visivelmente diferente do elefante africano comum, com presas curtas e pernas longas.

A equipe tentou coletar material genético do animal, mas o touro fugiu. Boyes voltou ao acampamento com amostras que podem ajudar a desvendar os segredos dos elefantes fantasmas de Angola e contribuir para sua sobrevivência.

Desde então, Boyes retornou às terras altas de Angola duas vezes, coletando mais DNA de outras manadas de elefantes fantasmas. As análises mostraram que essa população é distinta de todas as outras sequenciadas, com uma linhagem matrilineal única.

““A linhagem matrilineal dos elefantes-fantasma é totalmente única”, afirmou Boyes.”

Entretanto, traçar um retrato completo de Henry tem sido complicado, e Boyes espera que novas amostras ajudem a resolver o mistério.

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