Esquema de fraudes em concursos públicos cobrava até R$ 500 mil por aprovação

Amanda Rocha
Tempo: 4 min.

A Polícia Federal revelou um esquema de fraudes em concursos públicos que cobrava até R$ 500 mil para garantir a aprovação de candidatos em cargos de alto nível. A investigação, que foi exibida pelo Fantástico, mostrou que a organização criminosa atuava em seleções em todo o Brasil, incluindo concursos para tribunais, bancos federais e universidades.

O valor pago variava conforme o cargo pretendido, sendo que quanto mais alto o salário e o poder do posto, maior era o preço cobrado pela quadrilha. “A remuneração da organização criminosa variava de acordo com o cargo para o qual as pessoas concorriam. Os cargos mais altos chegavam a cobrar R$ 500 mil por essa aprovação”, afirmou o superintendente da Polícia Federal.

Os pagamentos nem sempre eram feitos à vista. Em muitos casos, os candidatos parcelavam os valores ou adquiriam bens de alto valor, como carros de luxo, para quitar a dívida com a quadrilha. Além disso, havia casos em que os beneficiados passavam a pagar uma espécie de “mensalidade” após a aprovação.

Entre os métodos utilizados pela organização estavam o uso de “bonecos” — pessoas pagas para fazer a prova no lugar do candidato —, pontos eletrônicos e o envio de fotografias dos cadernos de questões e do gabarito antes ou durante a aplicação da prova.

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A investigação começou com uma denúncia anônima que levou os investigadores até o ex-policial militar Wanderlan Limeira de Sousa, na cidade de Patos, na Paraíba. Ele e dois parentes foram aprovados no Concurso Nacional Unificado (CNU) de 2024 para o cargo de auditor fiscal do trabalho, com salário superior a R$ 22 mil.

No celular da sobrinha de Wanderlan, Larissa Neves, a polícia encontrou áudios que ajudam a explicar o esquema. Em um dos áudios, Wanderlan menciona: “O custo vai ser dobrado porque tem como ter vigilante, tem que corromper a chefe do vigilante. É um rolo do desativar as canas. É como se fosse ter um ‘boneco’, entendeu?”.

As investigações também identificaram Thyago José de Andrade como chefe da organização criminosa, responsável por cooptar funcionários de instituições organizadoras de concursos em todo o Brasil. Mensagens interceptadas mostram negociações que envolviam centenas de milhares de reais. Em um dos áudios, Wanderlan fala sobre uma dívida de R$ 400 mil a Thyago por um serviço prestado a um candidato.

A investigação avançou após a delação de Thyago e da namorada dele, Laís Giselly Nunes de Araújo, revelando novos nomes, incluindo o do delegado-geral da Polícia Civil de Alagoas, Gustavo Xavier do Nascimento. Na última semana, a Polícia Federal cumpriu mandados de prisão em Alagoas, Paraíba e Pernambuco, resultando na prisão de dois professores suspeitos de resolver provas para candidatos.

O delegado-geral de Alagoas foi alvo de busca e apreensão. Outro caso investigado envolve uma candidata cujo marido, delegado em Pernambuco, teria pago pela sua aprovação. Ela continua trabalhando como auditora. As defesas dos investigados, Antônio Limeira das Neves e Larissa de Oliveira Neves, negam as acusações ou afirmam que ainda não há denúncia formal. Thyago José e Laís afirmam que não fazem parte de nenhuma organização criminosa e que são inocentes.

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A fundação responsável pela organização do concurso também se declarou vítima das fraudes. Os investigados podem responder por crimes como fraude em concurso público, organização criminosa e concussão.

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