Um estudo realizado com mais de 51 mil nascimentos em Israel revelou que problemas de tireoide durante a gravidez podem aumentar o risco de transtorno do espectro autista (TEA) nos filhos. A pesquisa, que acompanhou os nascimentos até 2021, indicou que o risco é maior quando a mulher apresenta hipotireoidismo crônico e também desenvolve hipotireoidismo gestacional.
Os dados mostraram que a duração do desequilíbrio hormonal pode influenciar o neurodesenvolvimento do bebê. Um trimestre de gestação com hipotireoidismo não tratado está associado a um aumento de cerca de 69% no risco de TEA. Com dois trimestres, o risco sobe para 139%, e em três trimestres, o aumento é de 225%.
O estudo analisou 51.296 nascimentos únicos ocorridos entre janeiro de 2011 e dezembro de 2017 em um hospital do sul de Israel. As crianças foram acompanhadas até janeiro de 2021. O diagnóstico de autismo foi considerado com base nos critérios do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5).
Entre as mulheres avaliadas, 4.409 (8,6%) apresentaram função tireoidiana anormal durante ou antes da gestação. Os hormônios tireoidianos maternos são essenciais para o desenvolvimento do cérebro fetal, especialmente no primeiro trimestre, quando o bebê depende em grande parte dos hormônios produzidos pela mãe.
Os pesquisadores observaram que não houve associação significativa entre qualquer disfunção tireoidiana e autismo de forma geral. No entanto, quando o hipotireoidismo crônico da mãe ocorreu junto com o hipotireoidismo gestacional, o risco de TEA nos filhos foi mais de duas vezes maior.
Os resultados sugerem um efeito dose-resposta: quanto maior o tempo de exposição ao hipotireoidismo, maior o risco de TEA. O estudo destacou que o hipotireoidismo crônico isolado não foi associado ao autismo, possivelmente porque as mulheres estavam em tratamento e com níveis hormonais controlados durante a gestação.
Os pesquisadores ressaltam a importância de monitorar a função tireoidiana durante a gravidez para identificar e tratar alterações hormonais o mais cedo possível. Embora a pesquisa mostre uma associação estatística, não é possível estabelecer uma relação causal direta entre o hipotireoidismo materno e o autismo.
A ginecologista e especialista em pré-natal, Lilian de Paiva, da Federação Brasileira de Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), destacou que os principais sinais de hipotireoidismo na gestante podem se confundir com sinais da gravidez, como aumento de peso, sonolência, edema e unhas e cabelos quebradiços. Ela enfatizou que todas as gestantes devem ser rastreadas por meio da dosagem do hormônio TSH.


