As autoridades dos Estados Unidos manifestaram preocupação com a atuação do Primeiro Comando da Capital (PCC) no tráfico internacional de drogas, especialmente no tráfico de fentanil e armas para o Brasil. O promotor de Justiça do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado do Ministério Público de São Paulo (Gaeco/MP-SP), Lincoln Gakiya, fez essa declaração em entrevista ao Estudio I.
Gakiya destacou que a classificação do PCC como organização terrorista poderia dificultar o compartilhamento de informações de inteligência entre Brasil e Estados Unidos. Ele afirmou:
“”A preocupação hoje é o grande número de integrantes do PCC que já estão atuando nos EUA, principalmente no tráfico de fentanil e no tráfico de armas para o Brasil.””
O promotor também mencionou que os integrantes do PCC estão envolvidos na lavagem de dinheiro em alguns estados americanos, com destaque para a Flórida, onde têm investido no mercado imobiliário e em criptoativos.
“”Vários integrantes da facção têm aplicado no mercado imobiliário na Flórida e na questão dos criptoativos, também procurando algumas exchanges [corretoras] americanas para fazer essa garimpagem nos EUA,””
disse Gakiya.
Ele revelou que mantém colaboração com o governo americano, incluindo o FBI e o DEA, e que operações conjuntas já ocorreram, como uma realizada em Boston no ano passado. No entanto, Gakiya alertou que, se o PCC for classificado como organização terrorista, isso pode elevar a classificação das informações trocadas, dificultando o acesso dos investigadores brasileiros.
“”Se os EUA porventura classificarem o PCC como organização terrorista, ele passa a apresentar, segundo os EUA, um risco para o Estado americano,””
completou.
O promotor, que investiga a facção há 20 anos e vive sob escolta policial devido a ameaças de morte, enfatizou que o PCC não é uma organização terrorista, mas sim uma organização criminosa transnacional.
“”O PCC nunca teve cunho ideológico ou político. Não tem ódio racial, religioso ou de etnia como objetivo,””
afirmou.
Gakiya criticou a apropriação do tema por discursos políticos, que criam a falsa ideia de que a classificação de terrorismo traria benefícios no combate ao crime organizado. Ele alertou que essa classificação pode resultar em barreiras burocráticas e econômicas, além de possíveis sanções ao Brasil.
“”Quando você classifica uma organização como terrorista, você autoriza o governo americano a praticar ações militares fora do estado americano,””
disse.
O governo brasileiro tenta impedir a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas, especialmente antes de um encontro entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente dos EUA, Donald Trump. O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, já fez um pedido ao secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, para que não encaminhe essa decisão ao Parlamento dos EUA.


