Um estudo publicado na revista científica Global Ecology revelou que a fome pode ser uma ameaça significativa à sobrevivência da onça-pintada (Panthera onca) na Mata Atlântica. Mesmo em áreas protegidas, a disponibilidade de presas, como porcos-do-mato, catetos e cervos, está muito baixa.
A diminuição da base alimentar da onça é influenciada por ações humanas, como o desmatamento e a caça ilegal. Atualmente, restam menos de 300 onças-pintadas na Mata Atlântica. Se a situação não melhorar, o bioma pode se tornar o primeiro do mundo a perder um predador de topo devido à falta de presas.
Para investigar o problema, pesquisadores analisaram dados sobre a dieta da onça e realizaram um levantamento com armadilhas fotográficas em nove áreas protegidas. Os resultados mostraram diferenças significativas entre as regiões: no Corredor Verde, que conecta trechos do Brasil, Argentina e Paraguai, ainda há quantidade suficiente de presas. No entanto, em áreas costeiras, como a Serra do Mar, a biomassa de presas é extremamente baixa.
““O histórico de degradação da Mata Atlântica é um fator que contribui de forma decisiva”, disse Katia Ferraz, professora da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP) e principal autora do estudo.”
O estudo também destacou a relação entre a pressão humana e a disponibilidade de alimento para as onças. As análises mostraram que as populações de presas são maiores em áreas de difícil acesso para humanos, enquanto locais mais acessíveis apresentam abundâncias muito menores. Isso indica que a caça ilegal e a presença humana reduzem essas populações, mesmo dentro de áreas de preservação.
““Para salvar a onça, precisamos salvar suas presas, que estão declinando mesmo em áreas protegidas”, alertou Katia.”
A pesquisadora enfatizou a necessidade de uma fiscalização mais eficiente e do envolvimento comunitário na conservação das espécies. Isso inclui oferecer alternativas socioeconômicas para as populações residentes nas proximidades das áreas protegidas, evitando a exploração insustentável do bioma.
Embora a onça-pintada consiga adaptar parcialmente sua dieta, consumindo presas menores como pacas, tatus e quatis, essa flexibilidade tem limites. A dependência de presas de grande porte continua sendo essencial para a viabilidade da população do felino.
A pesquisa conclui que a recuperação da espécie depende não apenas da proteção do habitat, mas também da restauração das populações de presas, do combate à caça ilegal e da melhoria da conectividade entre os fragmentos florestais. Sem essas ações, o bioma pode perder seu principal predador de topo, causando impactos irreversíveis na estrutura ecológica da floresta.

