A Polícia Federal deflagrou nesta terça-feira (17) uma operação contra a deputada federal Maria Gorete Pereira (MDB-CE) devido a descontos ilegais realizados pela Associação dos Aposentados e Pensionistas Nacional (Aapen), sediada em Fortaleza (CE). A parlamentar passou a ser monitorada por tornozeleira eletrônica.
No ano passado, a Aapen foi processada por sua própria presidente, Francisca da Silva de Souza, que alegou à Justiça ter sido enganada e colocada no comando da entidade sem seu conhecimento. Francisca, de 72 anos, é analfabeta, viúva e pensionista do INSS, e complementa sua renda com pequenos serviços de manicure.
A Aapen, que contava com quase 492 mil associados em maio de 2024, descontava mensalidades diretamente das aposentadorias, arrecadando milhões de reais mensalmente. A investigação da PF revelou que a deputada Gorete Pereira atuou como “articuladora política junto a órgãos públicos”, recebendo valores por meio de interpostas pessoas e empresas de fachada.
“”[A deputada] Utilizava influência política para viabilizar acordos com o INSS e manter contato direto com autoridades administrativas, bem como pressionava servidores públicos para acelerar processos”, afirmou a PF.”
A defesa da parlamentar nega irregularidades e afirma que as informações da investigação “não refletem a realidade dos fatos”.
Em agosto do ano passado, Francisca procurou a Defensoria Pública do Ceará, que ajuizou uma ação na Justiça estadual. A ação apontou que a idosa havia sido “indevidamente inserida como dirigente de uma entidade da qual jamais participou ativamente”. Como responsável legal da Aapen, ela começou a receber cartas de cobrança de pessoas lesadas pela entidade, resultando em mais de 200 processos contra ela.
A Defensoria destacou que Francisca foi enganada por uma mulher chamada Liduína, que a convenceu de que tinha direito a um empréstimo. Essa mulher apresentou advogados que fizeram a idosa assinar documentos, resultando em sua nomeação como presidente da Aapen sem seu conhecimento.
Para comprovar sua versão, Francisca anexou ao processo trocas de mensagens e áudios com os advogados. Em uma conversa de maio de 2025, ela expressou preocupação com as cobranças e temia que seu CPF fosse cancelado.
Além da deputada, a PF prendeu preventivamente a advogada Cecília Rodrigues da Mota, que foi presidente da Aapen antes de Francisca, e o empresário Natjo de Lima Pinheiro. A PF informou que esses indivíduos controlavam diversas associações que serviam como instrumentos para a prática de crimes.
A sede da Aapen foi fechada em 28 de abril do ano passado, três dias após a deflagração da Operação Sem Desconto. O fechamento dificultou a tramitação de ações judiciais contra a entidade, já que muitos aposentados não conseguiram intimá-la em processos de ressarcimento.
O governo federal criou um plano nacional de ressarcimento, criticado por advogados por não garantir pagamentos de indenizações. Antes da criação desse plano, muitos aposentados ingressaram com ações em tribunais estaduais, mas não receberam os pagamentos devido à dificuldade de localizar os responsáveis pelas associações.

