Gavião rouba a cena em ‘Hamnet’, filme favorito ao Oscar

Amanda Rocha
Tempo: 3 min.

O filme ‘Hamnet’, que está entre os favoritos ao Oscar, destaca a relação de Agnes, esposa de William Shakespeare, com um gavião-asa-de-telha. A obra, dirigida por Chloé Zhao, é indicada em oito categorias e retrata a vida da família do dramaturgo, focando no período que antecedeu a escrita da peça ‘Hamlet’.

A conexão de Agnes com a natureza é um dos pontos centrais da narrativa. A personagem, interpretada por Jessie Buckley, demonstra um profundo conhecimento sobre plantas medicinais e uma relação única com a ave de rapina que carrega com confiança no punho.

A floresta onde Agnes se encontra é um espaço de pertencimento e refúgio. A prática da falcoaria, comum na época, é simbolicamente retratada no filme. Shakespeare tinha grande interesse por essa arte, fazendo referências em suas obras, como em ‘Romeu e Julieta’.

“”Naquela época, a falcoaria tinha forte influência na cultura e na linguagem, principalmente nas artes”, afirma o biólogo e falcoeiro Alexandre Crisci Pessoa.”

O primeiro encontro entre Shakespeare e Agnes ocorre enquanto ela ampara sua ave, o que desperta o interesse do escritor. A ave, um gavião-asa-de-telha (Parabuteo unicinctus), é uma espécie exclusiva das Américas, introduzida na Europa muito depois do período retratado no filme.

O gavião-asa-de-telha é conhecido nos Estados Unidos como Harris’s hawk, em homenagem ao ornitólogo Edward Harris. No Brasil, a ave é encontrada em diversos ambientes, mas a subespécie utilizada no filme é diferente da que habita o país.

Segundo Alexandre, a subespécie da América do Norte é maior que a do Brasil. A ave é notável por sua habilidade de caçar em grupo, um comportamento raro entre rapinantes.

“”Se fôssemos rigorosos com a fidelidade histórica, o uso da espécie estaria equivocado. Acredito que escolheram essa ave por ser versátil e a favorita na falcoaria moderna”, comenta Crisci.”

Além disso, a sonoplastia do filme utiliza o grito do gavião-de-cauda-vermelha, um clichê de Hollywood, ao invés do som real do gavião-asa-de-telha, que não é considerado tão impactante. Para uma precisão histórica, as espécies que deveriam ser utilizadas seriam o bútio-comum, o falcão-peregrino ou o açor, aves que realmente habitavam a Inglaterra na época de Shakespeare.

A falcoaria, que surgiu há cerca de três mil anos na Ásia, evoluiu de uma ferramenta de sobrevivência para um esporte e símbolo de status. Na Idade Média, era um esporte quase exclusivo da nobreza, e as mulheres também eram tutoras ativas de aves.

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