O governo federal propõe um debate público sobre a redução da jornada máxima de trabalho de 44 para 40 horas semanais no Brasil, além do fim da escala 6×1, que consiste em seis dias de trabalho seguidos por um dia de descanso. A intenção é implementar a jornada de cinco dias de trabalho a cada dois de folga (5×2), visando proporcionar mais qualidade de vida aos trabalhadores.
A cobradora de ônibus Denise Ulisses, de 46 anos, relata sua experiência com a escala 6×1, onde trabalha seis horas diárias de segunda a sábado, com folga apenas aos domingos. Ela expressa o desejo de ter mais tempo livre, caso a proposta seja aprovada. “Eu sairia na sexta-feira à noite para o sítio e só voltaria no domingo à noite”, diz.
A ministra Gleisi Hoffmann destaca que a carga de trabalho da escala 6×1 pesa especialmente sobre as mulheres, que enfrentam a dupla jornada, acumulando trabalho remunerado e tarefas domésticas. Dados de 2022 do IBGE mostram que as mulheres dedicam, em média, 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos, enquanto os homens dedicam 11,7 horas.
A secretária Sandra Kennedy, do Ministério das Mulheres, afirma que a desigualdade de gênero precisa ser enfrentada. “Na soma entre o trabalho doméstico e o trabalho formal, nós trabalhamos muito mais do que os homens”, destaca. Ela acredita que o fim da escala 6×1 pode ajudar na divisão de tarefas em casa.
A jovem Tiffane Raany, auxiliar de serviços gerais, também sente os efeitos da carga de trabalho. Ela trabalha das 7h às 18h e ainda precisa cuidar do filho de 7 anos. “Eu pago R$ 350 por mês a uma cuidadora para ficar com meu filho”, relata.
Na quinta-feira (5), a Articulação Nacional de 8 de Março entregou ao Ministério das Mulheres o Manifesto Nacional do 8 de Março Unificado 2026, que defende o fim da escala 6×1. O documento afirma que esse modelo “rouba o tempo, adoece corpos e aprofunda desigualdades”.
Uma pesquisa da Nexus revela que 84% dos brasileiros apoiam ao menos dois dias de descanso semanal e 73% são favoráveis ao fim da escala 6×1, desde que os salários sejam mantidos. Jeisiane Magalhães Faria, balconista de farmácia, também expressa seu desejo por mais tempo para estudos e vida pessoal.
Apesar do apoio popular, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) alerta que a medida pode aumentar os custos empresariais em até R$ 267 bilhões ao ano. A CNC também projeta que a mudança pode elevar o preço dos produtos em até 13% e recomenda que as alterações sejam feitas por meio de negociação coletiva.
A secretária Sandra Kennedy contesta os argumentos contrários e lembra que melhorias nas condições de trabalho sempre enfrentaram resistência. O estudo do Cesit/Unicamp sugere que a aprovação do fim da escala 6×1 pode beneficiar 37% dos trabalhadores e gerar 4,5 milhões de empregos.
A proposta está atualmente em debate na Câmara dos Deputados, com a expectativa de votação em maio. O ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, afirmou que o governo pode enviar um projeto de lei com urgência para unificar as propostas em tramitação.

