A escalada militar envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos, iniciada recentemente, já provoca efeitos significativos além do setor de petróleo. Um dos impactos mais imediatos é a alta no preço global de fertilizantes, insumo essencial para a produção agrícola e, consequentemente, para o custo dos alimentos.
A tensão no Golfo Pérsico afetou o fluxo de navios no estreito de Ormuz, uma passagem estratégica que movimenta grande parte do comércio mundial de energia e matérias-primas químicas. O bloqueio parcial dessa rota reduziu a oferta de componentes básicos usados na fabricação de fertilizantes, como amônia, ureia, enxofre e fosfatos, desencadeando uma reação em cadeia no mercado agrícola.
A região do Golfo é um dos principais polos globais de produção desses insumos. Países como Irã, Qatar, Arábia Saudita e Emirados Árabes respondem por uma parcela relevante do comércio mundial de fertilizantes nitrogenados, que dependem fortemente de gás natural como matéria-prima. Com o conflito, as exportações ficaram paralisadas e os custos de produção aumentaram, especialmente na Europa, onde o preço do gás subiu cerca de 60% desde o início dos bombardeios ao Irã.
Esse choque de oferta já se reflete nas cotações internacionais. O preço da ureia, um dos fertilizantes mais utilizados no mundo, subiu cerca de 10% em uma semana e mais de 50% desde o início do ano, segundo dados de mercado.
Nos Estados Unidos, onde os agricultores se preparam para o plantio da primavera, o aumento dos custos começa a alterar decisões de produção. Fertilizantes específicos já ficaram cerca de 30% mais caros nas últimas semanas, pressionando as margens dos produtores. Diante desse cenário, alguns agricultores planejam reduzir o uso de fertilizantes ou mudar o tipo de cultivo. A soja, por exemplo, pode ganhar espaço sobre o milho, pois a planta consegue fixar nitrogênio no solo e, portanto, depende menos de fertilizantes industriais.
Essa mudança tem implicações para toda a cadeia agrícola. Empresas do setor de insumos, como a divisão agrícola da Bayer, já alertaram investidores sobre possíveis perdas de receita caso a área plantada de milho diminua. Em alguns casos, produtores estão reduzindo expectativas de produtividade. Um agricultor do Meio-Oeste americano afirmou que projeta colher cerca de 160 bushels de milho por acre, abaixo dos 200 bushels originalmente previstos, após cortar a aplicação de fertilizantes para reduzir custos.
Economistas e analistas de commodities alertam que o aumento do preço de fertilizantes pode gerar uma segunda onda inflacionária global, após a alta do petróleo. Isso ocorre porque fertilizantes estão na base de grande parte da produção agrícola mundial. Estudos indicam que quase metade das colheitas globais depende diretamente de fertilizantes nitrogenados. Se o encarecimento persistir ou a oferta permanecer limitada, a produção agrícola pode cair ou tornar-se mais cara, elevando os preços de alimentos nos próximos meses.
A Organização das Nações Unidas e entidades agrícolas já alertaram para riscos maiores em países em desenvolvimento, que dependem de importações e têm menor capacidade financeira para absorver o choque de custos. Enquanto isso, empresas produtoras de fertilizantes em países com acesso mais barato a gás natural estão se beneficiando.
Nos Estados Unidos, investidores apostam que fabricantes locais ganharão mercado diante das dificuldades de exportadores do Oriente Médio. As ações da CF Industries, uma das maiores produtoras de fertilizantes nitrogenados do país, já acumulam alta superior a 70% no ano. Empresas como Mosaic e Nutrien também registraram ganhos expressivos na bolsa, devido ao acesso a gás natural mais barato nos EUA, o que mantém os custos de produção relativamente estáveis.
Embora a atenção do mercado esteja concentrada na disparada do petróleo, analistas afirmam que os fertilizantes podem se tornar um fator econômico ainda mais sensível. O impacto não se limita à energia ou aos mercados financeiros, mas se espalha por toda a cadeia produtiva que vai da agricultura à mesa do consumidor, transformando um conflito geopolítico em um potencial problema global de inflação alimentar.


