Os Estados Unidos e Israel atacaram o Irã há uma semana, ampliando o conflito no Oriente Médio. Os desdobramentos dessa crise, a sete meses das eleições presidenciais brasileiras, podem impactar diretamente o cenário político de 2026, dependendo da duração e da intensidade da guerra.
O cientista político e professor do Insper, Leandro Consentino, afirmou: “Todo conflito de grandes proporções impacta o cenário doméstico de qualquer país”. Ele destacou que, no momento, há um impacto econômico, especialmente na questão do petróleo, que pode desequilibrar a narrativa do governo Lula.
Os preços do petróleo acumulam alta de cerca de 30%. Na última sexta-feira, o Brent, referência global da commodity, ultrapassou US$ 94 o barril, resultado da interrupção no fornecimento de combustíveis provocada pela guerra. O economista-chefe da XP, Caio Megale, escreveu em relatório: “Se a alta recente do Brent se provar persistente, um aumento no preço da gasolina será inevitável”.
Se o petróleo permanecer elevado ao longo de 2026, os custos devem se difundir pelas cadeias produtivas de bens industriais, alimentos e serviços, encarecendo o custo de vida da população. Especialistas indicam que os brasileiros de baixa renda, base eleitoral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), seriam os mais afetados.
O cientista político e professor da FGV EAESP, Eduardo Grin, avaliou que a inflação pressionada pode afetar a percepção da população: “Isso seria muito ruim para o eleitor que recebe Bolsa Família, que recebe até dois salários mínimos, para o qual o custo de vida seria o mais afetado e que é a grande base social e eleitoral do Lula. Acho que Lula dificilmente escapará do efeito disso”.
Do lado da oposição, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), apontado como forte candidato nas pesquisas, deve explorar o tema para criticar o governo. Até agora, o Planalto tem destacado indicadores econômicos positivos e trabalhado em pautas populares, como a escala 6×1.
Contudo, segundo Consentino, “mexer com o petróleo em um momento como esse certamente pode bagunçar esses indicadores”. Megale também observou que, no curto prazo, a arrecadação tributária segue forte e a alta do petróleo pode gerar receita adicional. “O recente salto nos preços do petróleo em resposta ao conflito no Irã, de aproximadamente 60 para 80 dólares por barril, pode gerar uma receita líquida adicional de R$ 21,4 bilhões em 2026. Contudo, o cenário de aumento da dívida pública persiste, e os riscos fiscais podem crescer à medida que a eleição se aproxima”.


