A HBO Max lançou nesta quarta-feira, 11 de março de 2026, a série documental Escravos da Fé: Os Arautos do Evangelho. A produção aborda o grupo tradicionalista e ultraconservador da Igreja Católica que enfrentou uma disputa judicial que quase impediu sua exibição.
A série investiga denúncias graves feitas por ex-integrantes do grupo, que incluem acusações de abuso físico e psicológico, alienação parental e diversas violências contra jovens que viveram em internatos da instituição. A associação que representa os Arautos do Evangelho entrou na justiça para tentar barrar a exibição, alegando que os temas abordados estão sendo investigados em um processo criminal sigiloso conduzido pela Promotoria de Caieiras, em São Paulo.
Em dezembro do ano passado, o pedido da associação foi aceito pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), que proibiu a veiculação da obra até o encerramento da disputa judicial. Após o veto, a Warner Bros Discovery recorreu ao Supremo Tribunal Federal (STF), argumentando que não é parte no processo e que não teve acesso às informações contidas nos autos da ação. A empresa alegou que a decisão do STJ configurava censura prévia à produção.
No início de março de 2026, o ministro Flávio Dino acatou o pedido da Warner Bros Discovery e liberou a exibição da série. Ele argumentou que “não se pode presumir quebra de segredo de Justiça pela mera coincidência de objetos entre procedimentos judiciais e obras artísticas” e que a imposição de censura prévia “é inadmissível”.
Os Arautos do Evangelho são conhecidos por vestirem hábito marrom e branco, com uma grande cruz no peito, no estilo dos cavaleiros medievais. Fundados em 1997 por João Scognamiglio Clá Dias, a organização é uma ramificação da associação tradicionalista TFP (Tradição, Família e Propriedade). Ao longo de trinta anos, Clá foi homem de confiança de Plínio Corrêa de Oliveira, fundador da TFP.
Em 2001, os Arautos conquistaram o título de Associação Internacional de Direito Pontifício, concedido por João Paulo II, sendo considerados um “dom de Deus, um carisma útil e necessário para o bem da Igreja e do mundo”. Entretanto, em 2017, o grupo foi denunciado ao Vaticano por práticas que não condizem com as diretrizes da Igreja Católica, levando a uma investigação e colocando a organização sob tutela.
A Santa Sé apontou “lacunas sobre seu estilo de governo, a vida dos membros do Conselho, pastoral vocacional, formação de novas vocações, administração, gestão das obras e recuperação de recursos”. Atualmente, a entidade está presente em aproximadamente setenta países, conta com cerca de 200 sacerdotes e milhares de membros.


