A Unidade de Terapia Intensiva (UTI) adulta do Hospital Municipal Dr. Mário Gatti, em Campinas (SP), foi fechada temporariamente após sete pacientes apresentarem infecção pela superbactéria KPC, um microrganismo conhecido por resistir a grande parte dos antibióticos.
A medida foi adotada para conter a disseminação dentro do hospital. Quando um caso é identificado, equipes de controle de infecção costumam isolar pacientes e realizar uma desinfecção rigorosa do ambiente para evitar novos casos.
A KPC não é uma espécie totalmente nova de bactéria. Trata-se de uma variante da Klebsiella pneumoniae, um microrganismo que já existe naturalmente e pode causar infecções, mas que desenvolveu um mecanismo que dificulta o tratamento. Segundo o infectologista Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), a diferença está na capacidade da bactéria de produzir uma enzima que destrói os antibióticos.
““A KPC é uma Klebsiella que desenvolveu, por mutações, a capacidade de produzir uma enzima que destrói boa parte dos antibióticos normalmente usados para combatê-la”, explica.”
Essa enzima, chamada carbapenemase, neutraliza medicamentos importantes usados no tratamento de infecções bacterianas. Por isso, a bactéria passa a responder a poucas opções terapêuticas.
Bactérias com resistência a vários antibióticos são conhecidas como bactérias multirresistentes —popularmente chamadas de superbactérias. Nesses casos, as opções de tratamento ficam mais limitadas e muitas vezes é necessário usar combinações de antibióticos ou medicamentos menos utilizados.
““A resistência antimicrobiana não é simples, não é tudo ou nada. Às vezes a bactéria tem resistência parcial e precisamos associar antibióticos para conseguir tratar”, diz Kfouri.”
A KPC pode provocar diferentes tipos de infecção, dependendo do órgão afetado. Entre as principais estão: pneumonia, infecção urinária, infecção na corrente sanguínea (sepse) e meningite. Em geral, essas infecções acontecem em pacientes já internados e com quadro clínico grave.
A KPC é considerada uma bactéria típica do ambiente hospitalar. Isso ocorre porque pacientes internados frequentemente passam por procedimentos invasivos, como sondas, cateteres, ventilação mecânica ou cirurgias, o que pode facilitar a entrada de microrganismos no organismo.
““A grande maioria dos casos acontece em ambiente hospitalar, onde há pacientes mais vulneráveis e maior uso de antibióticos”, afirma Kfouri.”
A transmissão ocorre principalmente por contato com superfícies ou materiais contaminados, além de secreções corporais. A bactéria pode ser transmitida por secreções respiratórias, sangue, fezes, urina e superfícies hospitalares contaminadas.
Por isso, medidas como higienização rigorosa das mãos e desinfecção do ambiente são fundamentais para evitar surtos. Quando um caso é detectado, os hospitais adotam protocolos rígidos para impedir a disseminação, incluindo o isolamento do paciente infectado e a limpeza completa do ambiente.
““Se você identifica um caso, é sinal de que a bactéria pode estar circulando naquele ambiente. Por isso são necessários cuidados rigorosos para evitar novos casos”, explica Kfouri.”
O aumento das superbactérias está diretamente ligado ao uso inadequado de antibióticos, incluindo automedicação e uso desnecessário em hospitais. Segundo Kfouri, esse fenômeno é considerado um dos grandes desafios da medicina atual.
““O problema é que a resistência cresce no mundo inteiro, enquanto o desenvolvimento de novos antibióticos não acompanha esse ritmo”, afirma.”


