Pesquisadores estão explorando uma nova abordagem para o tratamento do câncer, focando na detecção da doença antes que os tumores se formem. Essa estratégia, chamada de “interceptação do câncer”, visa atacar os processos biológicos que levam ao câncer muito antes de um tumor se tornar evidente.
Os cientistas buscam sinais precoces, como mutações genéticas que se acumulam nas células e lesões pré-cancerosas, como pintas ou pólipos. Estudos genéticos demonstram que, com o envelhecimento, o corpo acumula células mutadas, conhecidas como clones, que podem prever a probabilidade de desenvolvimento de cânceres sanguíneos, como a leucemia.
Um estudo de 16 anos com cerca de 7.000 mulheres revelou que algumas mutações favorecem a multiplicação dos clones, especialmente em situações de inflamação. Essa compreensão permite identificar indivíduos com maior risco de desenvolver câncer no futuro.
“”O câncer se desenvolve por meio de um processo lento e em várias etapas, com sinais de alerta detectáveis ao longo do caminho”, afirmam os pesquisadores.”
Os cientistas também estão desenvolvendo exames de sangue, conhecidos como testes de detecção precoce de múltiplos cânceres (MCED), que identificam pequenos fragmentos de DNA tumoral circulante (ctDNA) no sangue. Esses testes têm mostrado resultados promissores, especialmente para o câncer colorretal, onde a detecção precoce pode aumentar significativamente as taxas de sobrevivência.
Apesar dos avanços, os testes MCED não são infalíveis e podem não detectar todos os tipos de câncer. Além disso, resultados positivos precisam ser confirmados por exames adicionais. A abordagem de risco, semelhante à utilizada na cardiologia, busca combinar mutações genéticas e fatores ambientais para orientar estratégias de prevenção precoce.
Entretanto, a detecção de risco de câncer levanta questões éticas. A ansiedade gerada por diagnósticos de risco pode ser prejudicial, e a eficácia das intervenções varia. A utilização de testes MCED também apresenta preocupações éticas, como a possibilidade de sobrediagnóstico e a criação de desigualdades no acesso a esses exames.
Nos Estados Unidos, a agência reguladora de medicamentos está avaliando a utilização dos testes MCED, enquanto o Reino Unido planeja aumentar a quantidade de exames diagnósticos no sistema público de saúde. O câncer, portanto, não surge de repente, mas é o resultado de um processo gradual que pode ser detectado antes de se manifestar clinicamente.

