O ultraconservador José Antonio Kast assume a presidência do Chile nesta quarta-feira, 11 de março de 2026, na virada mais radical à direita desde o fim da ditadura de Augusto Pinochet.
A posse de Kast consolida o avanço de direitistas na América Latina, que agora lideram cinco de doze países na região. O advogado chileno de 60 anos chega ao cargo prometendo uma postura rigorosa em relação ao crime e à imigração irregular, que são as principais preocupações da população.
Kast anunciou um “governo de emergência” em resposta ao aumento da criminalidade. Nos últimos anos, os cidadãos abandonaram o desejo por uma nova Constituição, movimento que surgiu com a revolta social de 2019. O presidente em final de mandato, Gabriel Boric, foi um dos principais defensores desse processo, que não teve sucesso após duas tentativas.
O novo chefe de Estado, católico devoto e pai de nove filhos, representará “uma direita conservadora sem precedentes desde o retorno à democracia”, afirmou Rodrigo Arellano, analista político da Universidad del Desarrollo, à agência de notícias AFP. Apesar do aumento de assassinatos e sequestros, o Chile ainda é uma das nações mais seguras da região, com uma taxa de homicídios de 5,4 por 100 mil habitantes em 2025.
Durante a campanha, Kast fez discursos atrás de um vidro à prova de balas, retratando o Chile como um Estado falido dominado por narcotraficantes. Ele venceu as eleições presidenciais em dezembro contra a socialista Jeannette Jara. A cerimônia de posse ocorrerá no Congresso em Valparaíso, a 110 km de Santiago.
Além de confirmar o avanço da direita, Kast se juntará a governos aliados dos Estados Unidos na região. Os presidentes Javier Milei (Argentina), Rodrigo Paz (Bolívia) e Daniel Noboa (Equador) estarão presentes, assim como o subsecretário de Estado americano, Christopher Landau, e a venezuelana Nobel da Paz, María Corina Machado. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva cancelou sua presença e será representado pelo chanceler Mauro Vieira.
Dois dos futuros ministros de Kast foram advogados de Augusto Pinochet, cuja ditadura deixou 3.200 mortos e desaparecidos. Kast já declarou que, se o autocrata estivesse vivo, teria votado nele. Investigações revelaram que o pai de Kast, nascido na Alemanha, era membro do Partido Nazista, mas ele negou que o pai tenha sido simpatizante do nazismo.
Kast também nomeou uma ativista antiaborto como ministra dos Assuntos da Mulher, formando uma equipe com “pouca experiência em negociação e manobras políticas”, o que pode causar problemas com o Congresso, segundo Alejandro Olivares, cientista político da Universidade do Chile.
A posse de Kast pode ser diferente das transições cordiais de poder que o Chile costumava ter. Na semana passada, ele rompeu os laços com o governo de Boric, acusando o presidente cessante de ocultar informações sobre um projeto de cabo submarino de fibra óptica para conectar o país à China. Embora a transição tenha sido restabelecida, sua reação serviu como um sinal de seu estilo de governar.
Durante a campanha, Kast evitou controvérsias, esquivando-se de perguntas sobre sua admiração por Pinochet e sua rejeição ao aborto. Ele também não forneceu detalhes sobre como cumpriria suas promessas de cortar gastos públicos em US$ 6 bilhões sem eliminar benefícios sociais e de deportar mais de 330 mil imigrantes irregulares.


