Ad imageAd image

Kleber Mendonça Filho: trajetória do diretor de ‘O Agente Secreto’ até o Oscar

Amanda Rocha
Tempo: 5 min.

O diretor de cinema Kleber Mendonça Filho, 57, está em Los Angeles, nos Estados Unidos, para a cerimônia do Oscar, que acontece no próximo domingo (15) no Dolby Theatre, localizado na famosa Hollywood Boulevard. O filme ‘O Agente Secreto’, dirigido por Mendonça, disputa quatro estatuetas e é resultado de uma trajetória que começou no final da década de 1980, marcada por câmeras emprestadas, importação de fitas VHS e sessões diárias de cinema.

O professor José Afonso Jr., 56, da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) e colega de turma de Kleber desde 1988, detalha a construção do repertório do diretor. “Na época, o Kleber viajou para a Inglaterra e voltou super antenado. Ele trazia muito repertório, era uma espécie de internet do cinema antes da internet”, afirma Afonso.

A formação de Kleber foi influenciada por sua mãe, Joselice Jucá, historiadora da Fundação Joaquim Nabuco, que deu suporte para seus primeiros passos. Ela faleceu em 1995. Afonso menciona que a rede de afeto se estende até a madrasta de Kleber, Estela, de 90 anos, que recentemente enviou áudios elogiando a forma como o filme retrata as pontes do Recife.

Durante a faculdade, em uma Recife com pouco acesso a publicações especializadas, Kleber direcionava seus recursos para a formação cinematográfica. “Ele nunca foi um cara ligado a ter roupa cara ou sapato caro. Toda a grana que ele pegava era para comprar uma revista francesa Cahiers du Cinéma ou pedir para alguém trazer um VHS de um filme que não existia no Brasil”, relata Afonso.

A urgência em produzir levou o grupo de amigos de Kleber a transformar casas em estúdios improvisados. Afonso recorda que o diretor já demonstrava uma “precisão maníaca” com o som. “A gente começou a fazer experimentos, coisas em vídeo, e aquilo agregou um círculo coeso de amigos que tinham essa vontade de mexer com imagem”, diz Afonso.

Esse rigor técnico acompanha Kleber desde os videoclipes feitos para a MTV até as referências visuais que agora o levam ao Oscar. Em ‘O Agente Secreto’, o olhar de fã de Steven Spielberg aparece em cenas que remetem a clássicos como ‘E.T.’ e ‘Tubarão’, conectando lendas urbanas recifenses ao repertório de Hollywood.

Um dos pontos mais emocionantes para a turma de 1988 é o arco do personagem Alexandre, o projecionista que aparece no novo filme, sogro de Marcelo (Wagner Moura). Ele é uma figura real que Kleber documentou em seu trabalho de conclusão de curso em 1992, intitulado ‘Homem de Projeção’. Ver Alexandre na tela, mais de 30 anos depois, é um testemunho da coerência artística do diretor, segundo Afonso.

Apesar do reconhecimento internacional, Kleber preserva a vida comum no Recife. “Ele não mudou nada. É o cara que vai buscar os filhos na escola de bicicleta e circula pela cidade com naturalidade”, conta Afonso. Para ele, a cidade do Recife não é apenas cenário, mas o estúdio do cineasta, traduzindo tensões contemporâneas.

Afonso rebate críticas sobre um suposto regionalismo da obra, comparando-a a grandes nomes do cinema mundial. “Eu consigo compreender [o diretor e roteirista italiano Federico Fellini] sem morar em Roma, então o filme do Kleber tem camadas que tornam seu filme universal”. Essa universalidade se reflete no impacto emocional que as obras causam até mesmo no círculo mais íntimo, como a mãe de Afonso, que se reconheceu nas pontes e no enredo de ‘O Agente Secreto’.

Afonso conclui que a vivência urbana permite que Kleber transforme Recife em um estúdio universal. “Estou na torcida porque ele é o mesmo colega de faculdade de sempre. É feliz ver esse espaço no mapa ocupado por alguém que nunca se desviou do caminho.”

Além disso, haverá uma live especial na noite do Oscar, com cobertura da premiação e comentários de artistas e influenciadores.

Compartilhe esta notícia