O serviço de inteligência de Israel, o Mossad, abriu canais em persa no Telegram para se comunicar diretamente com iranianos durante a guerra contra a República Islâmica. As contas divulgam instruções de contato seguro e incentivam o envio de informações de dentro do Irã.
Um dos canais foi criado em 24 de dezembro, poucos dias antes do início de uma onda de manifestações contra o regime dos aiatolás. A mensagem de boas-vindas diz: “Se você chegou até aqui, provavelmente deseja entrar em contato conosco. Ficamos felizes”. O perfil, verificado pelo próprio portal da agência, orienta como falar com o Mossad por meio de um agente conversacional ou pelo site oficial.
No dia 6 de março, após o início da guerra, o canal publicou um apelo: “Continuem enviando informações do terreno. Vocês são testemunhas da verdade”. Cerca de 48 mil usuários estão inscritos. Outra conta, chamada “Mossad Oficial”, surgiu no início do mês e publica mensagens semelhantes e vídeos gerados por inteligência artificial.
Em um dos vídeos, membros da milícia Basij aparecem assustados com um possível ataque. Em outro, um homem tira uma foto discretamente com o celular. O Mossad intensificou os esforços nas redes sociais para recrutar iranianos. Enquanto o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, convoca iranianos a “assumirem o controle do próprio destino”, uma campanha mais discreta ocorre online há meses.
“Chegou a hora de agir. Uma breve conversa pode iniciar um novo capítulo para você. Entre em contato conosco por meio de uma linha segura”, diz uma das mensagens. A presença do Mossad nas redes não é nova, mas ganhou força com a guerra. Antes dos canais no Telegram, a agência já havia ampliado a comunicação com iranianos em outras plataformas.
O Mossad “realiza esse tipo de operação há décadas, utilizando as ferramentas e tecnologias disponíveis”, afirma Yossi Melman, jornalista israelense especializado em defesa e inteligência. “Assim como outros serviços de inteligência estrangeiros, a agência financiou publicações e estações de rádio em países inimigos”, disse o especialista à AFP.
Seis meses antes da abertura do canal no Telegram, outra conta, chamada “Mossad Farsi”, surgiu na rede social X. A primeira mensagem foi publicada em 25 de junho, logo após a guerra de doze dias entre Israel e Irã. Hoje, o perfil tem mais de 60 mil seguidores.
As primeiras publicações incluíram vídeos de Menashe Amir, radialista israelense nascido em Teerã, que passou mais de seis décadas transmitindo em persa para iranianos. Amir confirmou à AFP que a conta era administrada pela agência, embora não conste na lista oficial divulgada pelo Mossad.
A conta não foi autenticada oficialmente, mas é considerada ligada ao Mossad pela imprensa israelense. O perfil publicou críticas sarcásticas a líderes iranianos e outros conteúdos, como oferta de consultas de telemedicina, uma sequência enigmática de números e uma enquete sobre quem deveria liderar o país para enfrentar a crise hídrica.
Além disso, divulgou um vídeo com a frase “Make Iran Great Again”, adaptação do slogan de Donald Trump, “Make America Great Again”. O tom das mensagens se intensificou após protestos em massa no Irã no fim de dezembro de 2025, que foram reprimidos com violência. “Saiam às ruas juntos. Chegou a hora. Estamos com vocês. Não apenas à distância ou com palavras, estamos com vocês no terreno”, dizia uma das publicações.
Na terça-feira, poucas horas depois de Israel matar Ali Larijani, um dos principais líderes iranianos, e um comandante da Basij, a conta comentou: “Pessoas cruéis acabam morrendo”.


