Especialistas alertam que mudanças na cor, espessura ou formato das unhas podem indicar problemas de circulação sanguínea, mas nem toda alteração é sinal de artéria entupida. Muitas vezes, essas mudanças são consequência de trauma, envelhecimento ou infecções locais.
O dermatologista Miguel Ceccarelli, coordenador do Ambulatório de Doenças das Unhas do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE-UERJ), afirma que alterações isoladas raramente fecham diagnóstico. Ele explica:
““Algumas alterações de unhas podem ser pistas de problema circulatório, mas quase nunca são a única pista. Em geral, preocupam mais quando aparecem junto com outros sinais, como pele fria, mudança de cor, dor ao caminhar ou feridas que não cicatrizam.””
Na doença arterial periférica, que envolve a obstrução das artérias das pernas, há um conjunto típico de alterações. Entre elas, estão: pele fina, brilhante e fria; perda de pelos nas pernas; e unhas dos pés opacas, quebradiças, espessas e deformadas. Ceccarelli ressalta que essas alterações indicam que o tecido está recebendo pouco sangue há muito tempo.
Em quadros graves, podem surgir pontas dos dedos muito pálidas ou arroxeadas, áreas enegrecidas, dor intensa e bolhas ou feridas próximas às unhas. O dermatologista Hélio Amante Miot, docente da Faculdade de Medicina da Unesp, destaca a importância de diferenciar isquemia de hipoxemia. Ele explica:
““Isquemia é quando a circulação não chega bem ao tecido. Hipoxemia é quando o sangue chega com pouco oxigênio.””
Os primeiros sinais de isquemia costumam aparecer nas extremidades, como extremidades frias, pele ressecada sem explicação, crescimento lento da unha e destacamento da unha (onicólise). Já os sinais ligados à hipoxemia incluem cianose (unhas azuladas ou arroxeadas) e mudança no ângulo entre a unha e a pele.
Um dos achados mais conhecidos é o chamado clubbing, popularmente conhecido como “unha em vidro de relógio”. Miot explica que, quando o ângulo entre a pele e a unha se aproxima de 180 graus, a unha assume esse aspecto, indicando possível redução da oxigenação nas extremidades, especialmente em doenças pulmonares e cardíacas.
Ceccarelli também menciona alterações ungueais com base científica em doenças sistêmicas. Exemplos incluem unhas de Terry, que apresentam esbranquiçamento difuso, associadas a doenças hepáticas avançadas e insuficiência cardíaca; e linhas de Muehrcke, que refletem hipoalbuminemia e estão ligadas a doenças hepáticas graves.
Além disso, linhas de Beau, que são sulcos transversais, podem indicar pausas temporárias no crescimento da unha, comuns após infecções graves ou grandes cirurgias. Hemorragias em estilha, pequenas linhas escuras verticais, podem ser pistas de endocardite infecciosa ou doenças reumáticas.
Ceccarelli alerta que muitas informações nas redes sociais sobre unhas e circulação não têm respaldo científico. Por exemplo, a mancha branca na unha não indica falta de cálcio, mas é frequentemente causada por microtrauma. Além disso, unhas quebradiças não significam necessariamente “sangue fraco” ou anemia, mas podem estar relacionadas à exposição a químicos ou envelhecimento.
Os especialistas recomendam que a avaliação não deve ser feita com base em uma única alteração, mas sim em um padrão associado a sintomas. Sinais que justificam investigação incluem alteração de cor persistente, extremidades frias e doloridas, feridas que não cicatrizam e deformações importantes em várias unhas.

