Uma pesquisa do Consulado da Mulher, em parceria com a Vert.se e a Be.Labs, mostra que o nanoempreendedorismo feminino no Brasil é uma estratégia de adaptação à realidade econômica e social. O levantamento revela que, antes de se consolidar como negócio, essa prática é marcada pela informalidade e pela sobreposição de jornadas.
Segundo a diretora-executiva do Consulado da Mulher, Adriana Carvalho, “o que encontramos não foi um grupo de empreendedoras no sentido tradicional, mas um contingente de mulheres criando soluções econômicas em um cenário de limitações”. Nanoempreendedores são pessoas que atuam em pequena escala, com faturamento anual de até R$ 40,5 mil.
A pesquisa foi realizada em duas etapas, com 120 mulheres em grupos qualitativos e 371 participantes em um questionário nacional. Mais de 85% das entrevistadas têm filhos, e 29% cuidam de três ou mais. Além disso, 61% têm entre 30 e 49 anos, faixa etária associada à chamada geração sanduíche, que lida com múltiplas demandas de cuidado.
Para 75% das entrevistadas, abrir o próprio negócio foi uma resposta a crises como desemprego ou dificuldade de conciliar um emprego formal com a rotina doméstica. Mesmo quando existe a possibilidade de um emprego formal, ele não elimina o problema, pois cerca de 70% são as principais responsáveis pelo trabalho doméstico.
““Há uma ideia de que é uma escolha ficar em casa empreendendo. Não é”, diz Adriana. “É o que cabe dentro de uma rotina em que tudo depende dela.””
A pesquisa também revela que 71% das nanoempreendedoras são mulheres negras, e quase 40% têm ensino superior completo ou pós-graduação. Apesar da formação, muitas não conseguem permanecer no mercado de trabalho devido à falta de creches e políticas públicas de cuidado.
Embora 78% dos negócios faturem até R$ 3 mil por mês, 83% das famílias vivem com até três salários mínimos. Em mais da metade dos casos, não há separação entre finanças pessoais e do negócio, o que gera uma sensação de ganho que não corresponde à realidade.
Mais de 60% das entrevistadas dedicam mais de cinco horas diárias ao negócio, e 31% trabalham mais de oito horas por dia. Quando somadas às atividades de cuidado, as jornadas podem ultrapassar 10 horas diárias. Mesmo assim, cerca de 60% não desejam voltar ao regime CLT, principalmente pela falta de flexibilidade.
A pesquisa aponta também impactos na saúde mental, física e social. Cerca de 59% relatam ansiedade, estresse ou depressão, e 46% mencionam dores ou limitações físicas. Mais de 80% se identificam como cristãs, e 92% afirmam que a fé é importante para lidar com as dificuldades do negócio.
Quanto à formalização, cerca de 44% das entrevistadas estão formalizadas, enquanto 47,7% permanecem na informalidade. Entre os obstáculos, o custo fixo e a insegurança em relação à renda são os mais citados. No entanto, mulheres que participaram de programas de capacitação relataram aumento de renda e maior independência financeira.
““O que muda é a forma como elas se enxergam. Elas deixam de se ver como alguém que faz um complemento de renda e passam a se reconhecer como alguém que tem um negócio”, afirma Adriana.”


