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Saúde

Pacientes com câncer no Norte do Brasil viajam 442 km para radioterapia

Amanda Rocha
Última atualização: 19 de março de 2026 04:33
Amanda Rocha
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Tempo: 4 min.
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Pacientes com câncer que residem na região Norte do Brasil enfrentam grandes desafios para acessar a radioterapia pelo SUS. Eles precisam percorrer, em média, 442 quilômetros para receber o tratamento. Em comparação, moradores da região Sul viajam cerca de 71 km para o mesmo procedimento.

Essa diferença, que chega a ser seis vezes maior, foi evidenciada por um estudo multicêntrico internacional publicado em fevereiro de 2026 na revista International Journal of Radiation Oncology. O estudo analisou mais de 840 mil procedimentos realizados entre 2017 e 2022 em todo o país.

Wilson José de Almeida Jr., presidente da Sociedade Brasileira de Radioterapia, destacou a importância do estudo, afirmando que ele revela uma desigualdade no acesso à radioterapia no Brasil. Apesar do parque radioterápico brasileiro ser o segundo maior das Américas, a concentração de serviços está em centros urbanos maiores.

Os dados do estudo mostram que 514.237 atendimentos exigiram deslocamento para outro município, o que significa que mais de seis em cada dez pacientes precisaram sair da própria cidade para realizar a radioterapia. A distância média nacional foi de 120 km, mas varia entre as regiões: no Sudeste, a média foi de 73,8 km; no Nordeste, 161,8 km; no Centro-Oeste, 238,9 km; e no Norte, 442,2 km.

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Fábio Ynoe Moraes, médico radio-oncologista e um dos líderes da pesquisa, afirmou que o endereço do paciente influencia diretamente suas chances de acesso ao tratamento. Ele ressaltou que o deslocamento prolongado para sessões diárias de radioterapia pode causar desgaste físico, emocional e financeiro para os pacientes e suas famílias.

Almeida Jr. também mencionou que o deslocamento dificultava o início e a continuidade do tratamento, aumentando custos e impactando a escolha terapêutica e a sobrevida dos pacientes. O estudo apontou um déficit estimado de 300 aparelhos de radioterapia e a obsolescência de 40% a 50% dos aceleradores existentes.

O perfil epidemiológico dos atendimentos revelou que 56% dos procedimentos foram realizados em mulheres e 44% em homens, com mulheres viajando, em média, 122,3 km e homens 117,3 km. Pacientes negros, pardos, indígenas e amarelos viajaram, em média, 145,6 km, enquanto pacientes brancos percorreram 97,3 km.

A maior parte dos procedimentos foi de radioterapia com intenção curativa (75,7%), enquanto tratamentos paliativos corresponderam a 14,6%. Procedimentos complexos, como braquiterapia, exigiram deslocamentos médios ainda maiores, de 165,8 km. Almeida Jr. enfatizou que a concentração de tecnologias de ponta em poucos centros amplia as desigualdades para pacientes que necessitam de terapias mais sofisticadas.

Com a previsão de um aumento de 50% nos casos de câncer até 2045, o Brasil enfrenta o desafio de vencer a obsolescência e a desigualdade no acesso à radioterapia. Almeida Jr. destacou que a sustentabilidade dos centros de alta complexidade é pressionada pelo reembolso, que é o menor da América Latina, o que pode levar a um “apagão de profissionais” se não houver remuneração adequada.

TAGGED:CâncerDesigualdadeFábio Ynoe MoraesradioterapiaSociedade Brasileira de RadioterapiaTratamentoWilson José de Almeida Jr.
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