A pesca colaborativa com botos, prática tradicional do Litoral Norte do Rio Grande do Sul, foi oficialmente reconhecida como patrimônio cultural imaterial pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A decisão foi anunciada no dia 14 de março de 2026, durante a 112ª reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural.
A pesca com botos, que envolve a interação entre humanos e a espécie Tursiops gephyreus, ocorre principalmente na barra do Rio Tramandaí, entre as praias de Tramandaí e Imbé, e também em Torres. José Roberto Prestes Madruga, dirigente do Sindicato de Pescadores de Tramandaí, destacou a importância do reconhecimento: ‘Protege a pesca cooperada, as comunidades da pesca e reconhece o território como de pesca.’
Os pescadores se posicionam na barra e os botos aparecem, indicando a localização dos cardumes. Quando há grandes concentrações de tainha, até 15 botos podem ser vistos colaborando com os pescadores. Geraldona, uma fêmea de boto-de-Lahille com mais de 40 anos, é a decana entre os botos e tem uma família composta por seus filhos Rubinha, Chiquinho e Furacão, além da neta Esperança.
A prática de pesca com botos é uma tradição centenária na região, com registros que remontam a mais de 100 anos. Maurino Ramos Francisco, pescador com 47 anos de experiência, expressou sua relação próxima com os botos: ‘Para nós, é muito show conviver com o boto a dois, três metros. O bicho é tão manso que fica ali do lado. Eu vejo eles todo dia, tanto que já viraram parte da família.’
Os botos ajudam os pescadores a localizar cardumes, criando uma relação de troca. Com o reconhecimento da prática, Maurino acredita que a pesca colaborativa será mais divulgada e protegida. Em 2025, a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) reclassificou os botos-de-Lahille como em perigo de extinção, com uma população estimada em cerca de 330 indivíduos no litoral Sul do Brasil.

