Pesquisadores brasileiros desenvolveram uma técnica que utiliza a pele de tilápia como curativo biológico, com aplicações que vão além do tratamento de queimaduras. O método, criado há mais de uma década por cientistas da Universidade Federal do Ceará (UFC), tem demonstrado eficácia na cicatrização de feridas e em procedimentos reconstrutivos.
A pesquisa começou quando os estudiosos descobriram que a pele do peixe possui uma grande quantidade de colágeno tipo 1, uma proteína essencial para a regeneração da pele humana. Essa descoberta possibilitou o uso do material como uma cobertura biológica para lesões.
Segundo o médico e pesquisador Edmar Maciel, coordenador do projeto e presidente do Instituto de Apoio ao Queimado, ao longo dos anos foram desenvolvidas diferentes formas de preparo do material para uso médico. Entre elas, a pele preservada em glicerol e a versão liofilizada, que passa por um processo de desidratação. A principal diferença entre os dois produtos é o armazenamento: a pele em glicerol deve ser refrigerada, enquanto a liofilizada pode ser mantida em temperatura ambiente, facilitando o transporte e a distribuição.
A aplicação mais conhecida da tecnologia é no tratamento de queimaduras. Devido à sua elasticidade e à estrutura rica em colágeno, a pele da tilápia atua como um curativo natural, protegendo a área lesionada e favorecendo a cicatrização. Especialistas afirmam que o material adere à pele do paciente e permanece sobre a ferida por vários dias, reduzindo a necessidade de trocas frequentes de curativos, algo comum em tratamentos convencionais com cremes e pomadas. Essa característica também ajuda a diminuir a dor durante a recuperação.
Além das queimaduras, a técnica tem sido utilizada em procedimentos de reconstrução vaginal. O material pode estimular a formação de um novo tecido a partir das células da paciente, sendo aplicado em mulheres com agenesia vaginal ou em pacientes que sofreram alterações devido a tratamentos contra o câncer. O mesmo recurso pode ser utilizado em cirurgias de redesignação sexual, com experiências na América Latina mostrando que centenas de pacientes já passaram por procedimentos que incorporaram o material.
A tecnologia também está sendo estudada na medicina veterinária, com resultados positivos no tratamento de feridas, queimaduras e problemas oculares em cães e gatos. Nesses casos, o material é utilizado na forma de matriz dérmica, obtida a partir do colágeno da pele do peixe, aplicada diretamente em tecidos lesionados para auxiliar na regeneração.
A escolha da tilápia para os estudos se deve à sua ampla criação no Brasil e à grande disponibilidade no mercado, facilitando a obtenção da matéria-prima. Além disso, por ser um peixe de água doce, o risco de transmissão de doenças é considerado menor. Grande parte da pele do peixe, que normalmente é descartada na indústria alimentícia, pode ser reaproveitada para fins médicos.
Embora a técnica já seja reconhecida na comunidade científica, ainda não está amplamente disponível na rede pública de saúde. No entanto, um acordo firmado no final de 2025 prevê a transferência de tecnologia para uma empresa responsável pela produção em escala. A expectativa é que, após o registro sanitário e a implantação de uma fábrica, o curativo biológico possa ser disponibilizado em hospitais públicos e privados em todo o país, representando uma alternativa mais acessível e eficaz no tratamento de queimaduras e outras lesões.

