Pesquisadora admite erros em estudo sobre polilaminina e promete nova versão

Amanda Rocha
Tempo: 5 min.

A pesquisadora Tatiana Sampaio, responsável pela pesquisa que apresentou a polilaminina como um possível tratamento para lesões na medula espinhal, afirmou que fará correções no artigo que apresenta os primeiros testes em humanos. Segundo ela, o texto passará por uma revisão geral, com correções, ajustes na apresentação dos dados e mudanças na forma como os resultados foram descritos.

O estudo foi divulgado como pré-print, uma versão preliminar de um artigo científico que é disponibilizada publicamente antes de passar pela revisão de outros pesquisadores. A polilaminina é uma proteína derivada da laminina, uma molécula presente naturalmente nos tecidos do corpo que ajuda a dar suporte às células. A hipótese do tratamento é que, aplicada na medula lesionada, ela poderia estimular a regeneração de conexões nervosas.

O trabalho que Tatiana vai revisar foi divulgado em pré-print em fevereiro de 2024 e aborda o resultado de duas décadas de pesquisas na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), incluindo a fase experimental em oito pacientes humanos que começou em 2018. Os resultados atraíram a farmacêutica Cristália, que já investiu R$ 100 milhões na pesquisa para que a polilaminina seja transformada em medicamento.

No início de 2026, o estudo e Tatiana ganharam destaque quando a cientista passou a dar entrevistas ao lado de Bruno Drummond, um dos pacientes que participou da pesquisa e voltou a andar após uma lesão medular. A divulgação gerou grande repercussão nas redes sociais e também críticas de especialistas sobre a pesquisa.

Pesquisadores questionaram pontos do trabalho, como inconsistências na apresentação de alguns dados e a interpretação de eficácia do tratamento sem que fosse possível isolar o efeito da substância de outras intervenções, como cirurgia e fisioterapia intensiva. Um exemplo envolve um paciente que morreu poucos dias após o procedimento, mas que nos dados do estudo aparecia com melhoras registradas após cerca de 400 dias de tratamento. Tatiana reconheceu que isso foi um erro e que será corrigido.

Ela negou que as mudanças estejam sendo feitas em resposta às críticas. A primeira versão corrigida do texto foi apresentada a duas revistas, a Springer Nature e o Journal of Neurosurgery, mas foi rejeitada por ambas. Tatiana agora trabalha em uma nova versão do artigo na tentativa de publicá-lo em uma revista científica.

As mudanças incluem correções técnicas, ajustes na apresentação de dados e novas explicações sobre os resultados do estudo. Tatiana afirmou que as alterações não modificam os dados já apresentados nem as conclusões da pesquisa, mantendo a crença na eficácia da polilaminina.

Uma das correções envolve um erro de identificação em um dos gráficos do estudo. Na versão atual do pré-print, o participante 1 aparece com cerca de 400 dias de acompanhamento, apesar de o texto indicar que ele morreu cinco dias após o procedimento. Tatiana confirmou que os dados pertencem, na verdade, ao participante 2 e que houve um erro de digitação na figura.

Outro ponto que vinha sendo questionado por especialistas envolve o exame de eletromiografia usado em um dos pacientes. Tatiana afirmou que vai substituir uma das figuras que apresenta esses dados, pois a imagem estava “mal programada” e exibia dados brutos.

Além das mudanças técnicas, o texto passará por uma revisão geral. Tatiana afirmou que alguns trechos do pré-print original “não estavam bem escritos” e que decidiu reescrever partes do artigo para explicar melhor os procedimentos e os resultados do estudo.

Apesar dos resultados apresentados, especialistas afirmam que ainda há muitas dúvidas sobre a polilaminina, incluindo se a substância foi realmente responsável pelas melhoras observadas nos pacientes. O estudo foi conduzido como um ensaio de “braço único”, onde todos os participantes receberam o tratamento testado, levantando dúvidas sobre a eficácia isolada da polilaminina.

Tatiana defende que um grupo controle não seria necessário, pois comparar os resultados do estudo com dados da literatura científica sobre pacientes tratados apenas com cirurgia e fisioterapia já seria suficiente.

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