Pesquisadores da USP identificam biomarcador que pode prever complicações da hepatite

Amanda Rocha
Tempo: 4 min.

Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) descobriram um conjunto de genes que pode indicar como a hepatite viral evolui no organismo. Essa rede de genes, chamada de neuroimunoma, conecta o sistema nervoso ao sistema imunológico e pode servir como um biomarcador para prever a gravidade da lesão no fígado e o risco de câncer hepático decorrente da infecção pelos vírus da hepatite.

O estudo, apoiado pela FAPESP e publicado no Journal of Medical Virology, analisou dados de mais de 1.800 amostras de bancos públicos dos Estados Unidos, Itália, China, Espanha, França, Alemanha, Reino Unido e Taiwan. A análise incluiu informações sobre tecidos do fígado e células de sangue infectadas por diferentes vírus da hepatite.

“Nossa primeira descoberta foi que as células de defesa no sangue [leucócitos] de pacientes com hepatite começam a expressar genes que são tipicamente associados ao sistema nervoso. Isso mostra que, em vez de operarem como dois sistemas independentes, eles parecem estar muito integrados por essa rede de genes e outras moléculas, que coordena respostas por todo o corpo, especialmente durante uma inflamação crônica como a da hepatite”, disse Otávio Cabral-Marques, professor da Faculdade de Medicina (FM) da USP e coordenador da investigação.

A partir de uma análise que utilizou técnicas de aprendizado de máquina, os pesquisadores identificaram que, à medida que a hepatite viral progride para o câncer de fígado (hepatocarcinoma), ocorre uma desregulação desses genes, com alguns deles sendo mais ou menos expressos. “Com isso, esse conjunto de genes pode vir a se tornar um biomarcador da progressão da doença. Há mudanças claras nessa desregulação entre os estágios iniciais e avançados do tumor, o que permite monitorar o agravamento da hepatite viral”, afirmou Adriel Leal Nóbile, cientista de dados e bolsista da FAPESP.

A hepatite viral é uma doença sistêmica, capaz de afetar vários órgãos além do fígado. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a enfermidade é a segunda principal causa infecciosa de morte no mundo, responsável por aproximadamente 1,3 milhão de óbitos por ano.

As análises mostraram que genes específicos (NRG1 e DBH) ficam progressivamente alterados conforme a gravidade do câncer aumenta. “O DBH é um gene associado à produção de noradrenalina, um neurotransmissor da resposta ao estresse. Isso indica que essa via de sinalização ligada ao estresse é potencializada no ambiente do tumor avançado, mostrando uma possível relação bidirecional entre o estresse e o crescimento do tumor”, disse Nóbile.

Além disso, genes do neuroimunoma (NRG1, OLFM1 e WDR62) aparecem tanto na progressão do hepatocarcinoma quanto em condições de saúde mental como depressão e ansiedade. “Com o neuroimunoma mostramos que não é só uma interferência do sistema nervoso no sistema imune. É uma rede muito conectada”, afirmou Cabral-Marques.

Os pesquisadores acreditam que essa conexão do neuroimunoma pode ocorrer também em doenças diferentes. Embora o trabalho não tenha analisado a relação entre hepatite, sistema neuroimune e a gravidade de depressão ou ansiedade, há evidências de uma forte associação entre o neuroimunoma e manifestações psiquiátricas na hepatite. “Futuramente, o neuroimunoma pode servir como um marcador tanto para prever a gravidade da doença hepática quanto para indicar possíveis complicações psiquiátricas, tão frequentes em pessoas com hepatite”, concluiu Nóbile.

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