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Polilaminina: pesquisa avança, mas testes ainda são necessários

Amanda Rocha
Tempo: 4 min.

A pesquisa sobre a polilaminina, desenvolvida por cientistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em parceria com a farmacêutica Cristália, ganhou destaque recentemente. No entanto, ainda existem questões a serem esclarecidas para confirmar se a substância pode ajudar pessoas com lesão medular a recuperar seus movimentos.

Os trabalhos, liderados pela bióloga Tatiana Sampaio Coelho, começaram há mais de 25 anos, com a maior parte do tempo dedicada à fase pré-clínica, que envolve testes laboratoriais. A equipe estudou as moléculas de polilaminina, verificando seus efeitos em culturas de células e em animais antes de avançar para testes em humanos.

A polilaminina foi descoberta acidentalmente por Tatiana Sampaio ao tentar dissociar partes da laminina, uma proteína presente em várias partes do corpo. Ao testar um solvente, as moléculas de laminina se uniram, formando a polilaminina, uma rede que nunca havia sido reproduzida em laboratório. Essa rede atua como base para a movimentação dos axônios, que são responsáveis pela transmissão de sinais no sistema nervoso.

Quando ocorre uma fratura na medula, os axônios se rompem, interrompendo a comunicação entre o cérebro e o corpo, o que leva à paralisia. O objetivo é testar se a polilaminina pode oferecer uma nova base para que os axônios cresçam novamente e restabeleçam essa comunicação.

Após resultados positivos em ratos, foi realizado um estudo-piloto entre 2016 e 2021 com oito pessoas que sofreram lesões totais na medula. Sete delas passaram por cirurgia de descompressão da coluna. Duas pessoas faleceram devido à gravidade das lesões, mas cinco pacientes que receberam a polilaminina e a cirurgia apresentaram algum ganho motor, embora não tenham voltado a andar.

A melhora foi avaliada pela escala AIS, que classifica o comprometimento de A (mais grave) a E (funcionamento normal). Quatro pacientes subiram do nível A para o C, enquanto um paciente, Bruno Drummond de Freitas, alcançou o nível D após recuperar sensibilidade e funções motoras quase normais.

““Foi uma virada de chave. Na hora, pra mim, não tinha valor mexer o dedão do pé e não mexer mais nada”, disse Bruno em entrevista.”

Apesar dos avanços, a experiência dos pacientes não é suficiente para comprovar a eficácia da polilaminina. Um artigo pré-print aponta que até 15% dos pacientes com lesão completa podem recuperar movimentos naturalmente, e a avaliação inicial pode ser influenciada por inflamações.

O professor de Farmacologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Eduardo Zimmer, explica que o ensaio clínico de um novo medicamento é composto por três fases. Atualmente, o estudo da polilaminina está na fase 1, que visa identificar a segurança e a tolerância do composto em humanos. Os testes devem começar neste mês e terminar até o final do ano.

Os testes serão realizados em cinco pacientes voluntários com lesões agudas completas da medula espinhal. A aplicação da polilaminina será feita diretamente na medula, e os pesquisadores monitorarão eventos adversos e a eficácia desde a fase 1, o que é incomum.

Tatiana Sampaio informou que duas doses diferentes da polilaminina serão avaliadas se o estudo avançar para a fase 2. A fase 3, que é a última etapa para verificar a eficácia do medicamento, ainda não tem detalhes definidos, mas a equipe espera concluir todas as fases em cerca de dois anos e meio.

Eduardo Zimmer ressalta que, na fase 3, os testes são feitos em diversos centros e os participantes são divididos em grupos, sendo que apenas um grupo recebe o tratamento. O objetivo é garantir que os resultados sejam atribuídos à nova droga e não a outros tratamentos disponíveis.

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