O Banco Central (BC) divulgou na quarta-feira (18) sua projeção de inflação, que ficou em 3,5% para o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) acumulado em 12 meses, no horizonte relevante para a política monetária, que é o terceiro trimestre de 2027. Essa estimativa foi elevada de 3,2% a 3,3%, mas ainda é inferior às expectativas do mercado.
A consultora econômica Tatiana Pinheiro, da FGV EESP, avaliou que a elevação tímida da projeção de inflação reforçou a percepção de uma comunicação relativamente dovish por parte do BC. Ela destacou que pouco do choque energético e da tensão geopolítica foi considerado nas projeções da autarquia.
O ex-chefe do Departamento de Operações de Mercado Aberto do BC, Sérgio Goldenstein, comentou que o desvio em relação à meta, por ter sido menor do que o esperado, tende a ser visto como um elemento dovish, aumentando a possibilidade de um corte de 50 bps na reunião de abril.
O Sistema Expectativas de Mercado, apurado pelo próprio Banco Central, aponta que a mediana do mercado vê a inflação em 3,8% no final de 2027. Além disso, o Copom (Comitê de Política Monetária) observou um balanço de riscos simétrico, com riscos aumentados tanto para inflação mais baixa quanto para inflação mais alta.
Os analistas também notaram que o BC enfatizou a desaceleração da atividade econômica e da inflação no final de 2025, mas não considerou indicadores recentes que foram mais fortes do que o esperado. Isso pode ser interpretado como um excesso de otimismo e uma leitura dovish do BC, segundo um relatório da Warren Rena.
Tatiana Pinheiro acredita que a projeção do BC considerou um cenário de conflito de curta duração, com o preço do petróleo estabilizando abaixo de US$ 100 o barril neste ano. Ela ressaltou que a próxima decisão do BC dependerá da trajetória do preço do petróleo, que permanece incerta.
Entre os riscos que aumentaram para uma inflação mais baixa, o Copom destacou a redução nos preços das commodities, que podem ter efeitos desinflacionários, mesmo em meio ao conflito. Goldenstein comentou que poderia haver uma substituição de ‘uma redução nos preços das commodities’ por ‘uma taxa de câmbio mais apreciada’.
Caio Megale, economista-chefe da XP, questionou o cenário apresentado pelo BC, afirmando que a autarquia deu pouca importância ao recente choque energético e manteve-se confiante de que a inflação está convergindo para a meta.
Luciano Sobral, economista-chefe da Neo Investimentos, afirmou que o Copom foi menos cauteloso do que poderia, mas alguns no mercado enxergaram o comunicado do BC como positivo. Raphael Vieira, da Arton Advisors, observou que o início do ciclo de cortes é positivo e pode beneficiar setores mais sensíveis a juros.
Os analistas concordam que os próximos passos da política monetária estarão condicionados à evolução das projeções e das expectativas, além de maior clareza sobre os impactos dos choques recentes na inflação. Rafael Cardoso, economista-chefe do Daycoval, destacou que a probabilidade é de o Banco Central seguir com o ritmo de 25 bps, a menos que haja uma melhora no cenário, como a queda do preço do petróleo.


