A possibilidade de os Estados Unidos classificarem o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas gerou um amplo debate no Brasil sobre segurança pública e impactos políticos internos. Especialistas afirmam que essa medida pode resultar em cooperação policial ampliada, tensões diplomáticas e pressões econômicas.
O tema ganhou destaque após declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, embora o debate não seja recente. Os EUA utilizam a suposta ligação entre o PCC e o Hezbollah como um dos argumentos para a classificação. Joseph Humire, autoridade do setor de Defesa dos EUA, afirmou em audiência no Congresso, em 2018, que o PCC teria conexões com o Hezbollah e outros grupos criminosos latino-americanos.
Humire destacou a Tríplice Fronteira (Brasil, Argentina e Paraguai) como um ponto de convergência entre crime organizado e terrorismo. Ele mencionou a cooperação entre facções e grupos terroristas em atividades como lavagem de dinheiro e troca de inteligência. No entanto, não há comprovação pública dessas conexões, e muitos países, incluindo o Brasil, não classificam oficialmente o Hezbollah como organização terrorista.
Edemundo Dias, delegado aposentado e ex-secretário de Segurança Pública, avaliou que a classificação pode provocar impactos políticos, econômicos e institucionais no Brasil. Ele afirmou que o PCC e o CV deixaram de ser apenas facções criminosas tradicionais e se tornaram redes transnacionais sofisticadas. “Essas organizações são empresas multinacionais, muito sofisticadas e perigosas”, disse.
Segundo Dias, o PCC e o Comando Vermelho estruturaram uma rede internacional que inclui conexões fora do país. Ele destacou que o PCC já possui células em 12 estados dos EUA. O especialista ressaltou que a preocupação do governo americano com a expansão dessas organizações ajuda a explicar a discussão sobre a classificação como terroristas.
As organizações criminosas brasileiras mudaram sua estratégia, priorizando atividades financeiras e empresariais em vez de disputas violentas por território. Dias mencionou que o PCC investe em empresas de fachada e setores variados da economia, incluindo postos de gasolina e o setor imobiliário. Ele alertou que sinais de lavagem de dinheiro podem aparecer em bairros de alto padrão.
Caso os EUA classifiquem facções brasileiras como organizações terroristas, Dias prevê consequências financeiras e diplomáticas, como o congelamento de ativos globais e imposição de sanções a países com infiltração do crime organizado. Ele destacou que isso poderia afetar setores da economia brasileira onde há suspeita de lavagem de dinheiro.
A eventual classificação pode colocar o Brasil diante de um dilema político e diplomático. Dias afirmou que o país pode enfrentar uma encruzilhada: aderir ao movimento internacional ou correr o risco de isolamento diplomático. Ele alertou que a adesão sem preparo institucional pode gerar consequências internas graves, como um aumento significativo de prisões.
O especialista também mencionou a complexidade da estrutura interna das facções, que se assemelha a uma organização empresarial, com funções variadas. Ele observou o aumento da participação feminina em funções estratégicas dentro dessas organizações, com algumas mulheres alcançando posições de comando.
Por fim, Dias defendeu que o Brasil busque uma abordagem integrada, com investimento em inteligência e reformas estruturais, considerando o peso de sua relação comercial com os Estados Unidos.


