Resistência do Irã pressiona EUA a encerrar conflito no Oriente Médio

Amanda Rocha
Tempo: 4 min.

A capacidade de resistência da República Islâmica do Irã e as retaliações contra aliados dos Estados Unidos (EUA) no Golfo Pérsico estão pressionando a Casa Branca a encerrar o conflito sem alcançar o objetivo de mudança de regime em Teerã. Essa é a avaliação de especialistas consultados.

O cientista político e especialista em geopolítica Ali Ramos destacou que o Irã conseguiu afetar o sistema de radares dos EUA no Oriente Médio e impôs perdas importantes à cadeia do petróleo global. Segundo ele, os EUA não têm como derrubar o governo iraniano sem uma invasão terrestre, o que traria baixas gigantescas. “A topografia do Irã inviabiliza qualquer ação rápida. Os EUA simplesmente entraram num atoleiro e Trump não sabe como sair”, avaliou.

Os radares dos EUA no Oriente Médio afetados por Teerã eram responsáveis pela interceptação dos mísseis iranianos. Há relatos de radares atingidos no Kuwait, Catar, Arábia Saudita, Bahrein e Emirados Árabes Unidos, segundo análise de imagens de satélites e vídeos do New York Times. “Com isso degradado, as baixas aumentam, o tempo do alerta [contra mísseis do Irã] em Israel diminui”, completou Ramos.

Aliados de Washington no Golfo passaram a pedir o fim do conflito. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Catar, Majed al-Ansari, afirmou que “chegar rapidamente à mesa de negociações e suspender os ataques serviria aos interesses dos povos da região, bem como à paz e segurança internacionais”.

O professor de relações internacionais do Ibmec São Paulo, Alexandre Pires, ponderou que os EUA esperavam conseguir uma troca de regime rápida por meio do assassinato do líder Supremo Ali Khamenei. “O Irã tem apresentado uma resiliência muito mais forte do que se esperava”, comentou.

Pires acrescentou que a pressão sobre os mercados do petróleo levou o presidente Donald Trump a relaxar as sanções contra a Rússia para aliviar os preços no mercado global. “Isso vai fazendo com que os EUA mudem talvez o foco atual de uma guerra completa”, completou.

Em entrevista, Trump disse que não ficou feliz com a escolha do novo líder Supremo do Irã, mas que “é possível” que venha a negociar com Teerã. Para Pires, Israel deve resistir a encerrar o conflito, pois deseja enfraquecer o Irã. “Há um certo sinal de divisão nos dois aliados”, disse.

O Irã conseguiu afetar a cadeia do petróleo ao bloquear o canal comercial do Golfo Pérsico, Estreito de Ormuz e Golfo de Omã. “Isso faz com que tentem forçar um recuo ou uma negociação americana-israelense”, completou.

O ministro das Relações Exteriores de Israel, Gideon Saar, afirmou que o país não quer uma guerra sem fim. “Consultaremos nossos amigos americanos quando acharmos que é o momento certo para isso”, disse Saar a repórteres.

Uma das dificuldades para encerrar a guerra é que a manutenção do regime no Irã representaria uma derrota para a Casa Branca. “O Irã vai ser o primeiro país da história que atacou tantas bases dos EUA ao mesmo tempo e sobreviveu”, afirmou Ramos. Ele argumenta que a guerra contra o Irã deve modificar a arquitetura de poder e segurança do Oriente Médio.

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