O Banco Central anunciou a redução da taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual, estabelecendo a Selic em 14,75% ao ano. Essa decisão reforça um cenário de restrição para a política agrícola e deve limitar mudanças significativas nas taxas do crédito rural no próximo ciclo do Plano Safra.
O corte, considerado marginal, mantém o custo do dinheiro em um patamar elevado, especialmente no momento em que o governo inicia a elaboração do Plano Safra, que depende da diferença entre a taxa de mercado e os juros subsidiados ao produtor. Técnicos envolvidos na formulação do programa avaliam que o espaço para reduzir as taxas do crédito rural permanece apertado.
O Plano Safra 2025/26 foi elaborado em um ambiente de Selic entre 14,25% e 14,75%, o mais alto desde o início do atual governo. Em contraste, o Plano Safra 2023/24 foi desenvolvido com a Selic em 13,75%, resultando em taxas de custeio empresarial em torno de 12% ao ano, enquanto as linhas de investimento variavam entre 7% e 11,5%.
No Plano Safra 2024/25, construído em um ambiente de juros mais baixos, as taxas apresentaram maior acomodação, com programas incentivados mantendo níveis competitivos. No entanto, no ciclo seguinte, as taxas subiram generalizadamente, com o custeio empresarial alcançando 14% ao ano e as linhas de investimento superando 13% em diversas modalidades.
Apesar do aumento expressivo no volume total de recursos, o custo do crédito ao produtor permanece pressionado. Com a Selic elevada, restrição fiscal e um ambiente externo adverso, a avaliação no governo é de que o próximo ciclo pode repetir ou manter as taxas atuais, sem espaço relevante para cortes.
Felippe Serigati, pesquisador do FGV Agro, afirmou que o corte do Banco Central reflete mais um compromisso já sinalizado do que uma mudança estrutural no cenário de juros. Ele destacou que a restrição fiscal limita a capacidade de reduzir taxas no crédito rural. “A restrição fiscal é complicada, com um conjunto de gastos obrigatórios. Apesar do esforço do governo para aumentar a arrecadação, oferecer juros muito baixos exige fôlego e, sem isso, a situação fica difícil”, disse.
O setor produtivo apresenta um cenário heterogêneo, com parte dos produtores operando com margens apertadas e outros enfrentando endividamento, além de casos de recuperação judicial. A conjuntura internacional atual adiciona volatilidade, com pressão sobre combustíveis e incertezas no mercado de insumos. “A safra de verão está terminando de ser colhida, a segunda safra já está no chão, mas a safra de inverno, especialmente o trigo, pode ter mais dificuldade. De todo modo, não vejo espaço para taxas muito mais baixas”, afirmou.
O Banco Central também reforçou a necessidade de cautela, condicionando os próximos passos à evolução do cenário externo, especialmente a guerra no Oriente Médio. O comunicado do Copom evitou qualquer sinalização de cortes mais acelerados, reafirmando a serenidade e cautela na condução da política monetária.
Os técnicos relatam que o desenho do Plano Safra considera não apenas o nível atual da Selic, mas também as expectativas para os meses seguintes, visando evitar descompasso entre o custo da equalização e as taxas ofertadas ao produtor. Em ano eleitoral, a pressão por estímulos ao setor aumenta, mas as restrições fiscais se tornam mais rígidas, resultando em um Plano Safra com expansão de recursos, ainda que marginalmente, mas com juros elevados e próximos das condições de mercado.


