Tratamento precoce e intensivo pode reescrever a história do diabetes

Amanda Rocha
Tempo: 3 min.

O diabetes tipo 2, que historicamente seguia um padrão de diagnóstico tardio e progressão lenta, pode ter sua trajetória alterada por intervenções precoces e intensivas. Essa mudança de paradigma se deve a uma maior compreensão dos mecanismos metabólicos da doença.

O diabetes tipo 2, frequentemente associado à predisposição genética, geralmente não surge isoladamente, mas como parte de um quadro maior que inclui a obesidade. O excesso de gordura corporal provoca inflamação crônica, resistência à insulina e sobrecarga do pâncreas, que tenta compensar com a produção aumentada de insulina. Com o tempo, as células beta do pâncreas começam a falhar, levando à necessidade de intervenções mais eficazes.

Um estudo importante, o DiRECT (Diabetes Remission Clinical Trial), realizado no Reino Unido, demonstrou que pacientes que perderam mais de 15 kg apresentaram taxas de remissão do diabetes superiores a 80%. Isso reforça a ideia de que o diabetes tipo 2 é uma doença do metabolismo energético e não apenas uma questão de controle glicêmico.

Novas pesquisas têm explorado estratégias de intervenção metabólica precoce, que também impactam fatores de risco cardiovascular, como triglicerídeos, colesterol e pressão arterial. Embora nem todos os pacientes alcancem a remissão, os dados sugerem que a intervenção precoce pode alterar significativamente a trajetória da doença.

Durante o congresso internacional ATTD 2026, em Barcelona, o estudo SURPASS-EARLY apresentou resultados relevantes. Com 794 adultos com obesidade e diabetes tipo 2 recente, o estudo comparou uma estratégia convencional de tratamento intensificado com a introdução da tirzepatida (Mounjaro), um agonista duplo dos receptores de GIP e GLP-1.

Após dois anos, o grupo tratado com tirzepatida teve uma redução média de hemoglobina glicada de 2,24 pontos percentuais, atingindo uma média de 5,56%. Em contraste, o grupo com tratamento convencional teve uma redução de 1,45 ponto, com média de 6,35%. Além disso, 68,8% dos pacientes tratados com tirzepatida alcançaram níveis normais de glicose, comparado a 26,7% no grupo convencional.

A perda de peso média foi de 15,8 kg no grupo da tirzepatida, em comparação a 6,5 kg no grupo convencional. A resistência à insulina também melhorou significativamente, com uma redução de 38,9% no grupo tratado com o agonista duplo.

Esses resultados indicam que a abordagem tradicional de tratamento do diabetes, que geralmente envolve a adição de medicamentos à medida que a doença progride, pode ser reavaliada. Intervenções precoces e intensivas podem permitir que o organismo retorne a um estado metabólico mais equilibrado, destacando a importância de tratar diabetes e obesidade de forma eficaz desde o início.

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