Wagner Moura chama Bolsonaro de ‘Trump brasileiro’ em talk show nos EUA

Amanda Rocha
Tempo: 5 min.

O ator Wagner Moura, 49, chamou o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) de ‘Trump brasileiro’ em uma entrevista exibida em rede nacional nos Estados Unidos na quarta-feira (4). O programa ‘Jimmy Kimmel Live!’, da emissora ABC, dedicou boa parte da conversa de oito minutos à política brasileira e ao contexto do filme ‘O Agente Secreto’, que rendeu a Moura a indicação ao Oscar de Melhor Ator e concorre em outras três categorias, incluindo Melhor Filme.

Durante a entrevista, Moura comentou sobre o discurso de Jimmy Kimmel em outra premiação, o Critics Choice Awards, em janeiro. Ele mencionou que cogitava agradecer a Bolsonaro caso vencesse o Oscar, em referência ao agradecimento irônico que Kimmel fez a Donald Trump. ‘Eu pensei que era uma ideia brilhante e que eu deveria basicamente agradecer ao Bolsonaro. Bolsonaro é o nosso Donald Trump brasileiro’, afirmou Moura, provocando risos e aplausos da plateia.

Kimmel reforçou a comparação, afirmando que, na sua visão, Bolsonaro é ‘anti-gay, anti-mulher, anti-todo mundo’. Moura acrescentou que ele é ‘anti-democracia’. O ator explicou que ‘O Agente Secreto’ surgiu do estranhamento que ele e o diretor do filme, Kleber Mendonça Filho, sentiram em relação ao que acontecia no Brasil durante o governo Bolsonaro (2018-2022). Segundo Moura, o longa não teria acontecido sem esse contexto político e social.

Ao comentar a reação institucional aos ataques de 8 de janeiro de 2023, em Brasília, Moura comparou a situação brasileira com os eventos de 6 de janeiro de 2021, nos Estados Unidos. Ele afirmou que ambos os países vivenciaram episódios semelhantes, com contestação de resultados eleitorais e invasão de prédios públicos. ‘A gente teve exatamente a mesma coisa, um negacionista da eleição incentivando as pessoas a invadirem as instituições e destruírem tudo’, disse.

Moura destacou que o Brasil respondeu de forma mais rápida, prendendo participantes e financiadores dos atos, além de responsabilizar Bolsonaro. ‘O Brasil foi muito rápido em mandar as pessoas para a cadeia. O Bolsonaro está preso. Os financiadores estão presos’, resumiu o ator.

Ele relacionou essa rápida reação à memória da ditadura militar no Brasil, afirmando que ‘isso aconteceu porque os brasileiros sabem o que é uma ditadura’. Moura, que nasceu em 1976, mencionou que, embora não tenha crescido plenamente sob o regime militar, sente que ‘os ecos da ditadura ainda estão muito presentes no Brasil’. Ele observou que, apesar da ditadura ter terminado formalmente em 1985, muitos traços permaneceram e que Bolsonaro é ‘uma manifestação desses ecos’.

A entrevista também abordou ‘Marighella’, filme de 2019 dirigido por Moura sobre o militante que liderou a resistência armada à ditadura. O ator contou que rodou o longa em 2017, antes da eleição de Bolsonaro, e que a estreia mundial ocorreu em 2019, no Festival de Berlim. Ele relatou que, após a posse de Bolsonaro, o governo ‘fez tudo o que podia’ para dificultar o lançamento no Brasil, que só ocorreu em 2021, dois anos após a première internacional.

Na conversa, Kimmel questionou Moura sobre como ele enxerga a democracia nos Estados Unidos, onde o ator reside atualmente. Moura expressou receio de que parte dos americanos tratasse a democracia como garantida, mas mencionou episódios recentes, como os protestos em Minneapolis, para ressaltar que o país ainda exerce influência nas lutas por direitos civis. Ele afirmou que muitos valores ligados a direitos e democracia ‘foram exportados’ pelos Estados Unidos e ajudaram a orientar debates no Brasil.

A conversa terminou de forma mais leve, com Kimmel destacando a popularidade de Moura ao mostrar os bonecos gigantes do Carnaval de Olinda que representam o ator e outras figuras conhecidas.

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