O Brasil entrou no tabuleiro geopolítico dos minerais estratégicos do século 21. A compra da mineradora Serra Verde, que opera em Goiás, pela USA Rare Earth por US$ 2,8 bilhões foi anunciada nesta segunda-feira, 20 de abril de 2026, e destaca o papel crescente do país na corrida global por terras raras, insumos essenciais para tecnologias como veículos elétricos, turbinas eólicas e sistemas militares.
A operação foi financiada com apoio direto da Casa Branca e representa mais um movimento dos Estados Unidos para reduzir a dependência da China, que domina a cadeia global desses minerais. O Brasil possui algumas das maiores reservas do mundo, ainda pouco exploradas, o que evidencia seu potencial estratégico.
As terras raras são um grupo de 17 elementos químicos fundamentais para a transição energética e a economia digital. Elas estão presentes em ímãs de alta performance usados em motores de carros elétricos, baterias, smartphones, turbinas eólicas e armamentos sofisticados. Atualmente, a China responde pela maior parte da produção e do processamento global desses materiais, o que se tornou um ponto de tensão geopolítica, especialmente após restrições de exportação impostas por Pequim.
Garantir acesso a fontes alternativas de terras raras se tornou uma prioridade estratégica para países ocidentais. Nesse contexto, o Brasil ganha protagonismo, detendo uma das maiores reservas de terras raras do planeta, atrás apenas da China, mas ainda explorando uma fração desse potencial. A mina de Pela Ema, operada pela Serra Verde em Minaçu, é atualmente a única em operação no país voltada à produção desses minerais em escala relevante.
A expectativa é que a mina responda por cerca de metade da oferta global de terras raras pesadas fora da China até 2027, o que explica o interesse internacional. O Brasil combina fatores estratégicos, como estabilidade institucional relativa, abundância de recursos naturais e proximidade com mercados consumidores.
A aquisição da Serra Verde faz parte de uma estratégia mais ampla dos Estados Unidos para criar uma cadeia integrada de produção de terras raras fora da órbita chinesa. A USA Rare Earth já recebeu promessas de até US$ 1,6 bilhão em apoio do governo americano e pretende atuar desde a mineração até a produção de ímãs, etapa de maior valor agregado.
Esse movimento busca reduzir vulnerabilidades em setores críticos, como defesa e energia, e se alinha a outras iniciativas, incluindo financiamentos públicos, acordos de fornecimento de longo prazo e parcerias com países ricos em minerais estratégicos.
A entrada de capital estrangeiro reforça o potencial do Brasil como fornecedor global de minerais críticos, mas levanta questões sobre soberania, agregação de valor e política industrial. Historicamente, o país exporta commodities com baixo nível de processamento, capturando apenas parte da cadeia de valor.
Especialistas apontam que o desafio será avançar para etapas industriais mais sofisticadas, como refino e fabricação de componentes. Além disso, cresce a pressão por regulação ambiental e social, já que a mineração de terras raras pode gerar impactos significativos se não for bem controlada.
A disputa por terras raras marca uma mudança estrutural na economia global. Se no século 20 o petróleo foi o principal recurso estratégico, agora são os minerais críticos que definem poder e influência. Nesse novo cenário, o Brasil deixa de ser apenas um exportador tradicional de commodities e passa a ocupar uma posição central em uma disputa que envolve tecnologia, segurança nacional e transição energética.
A venda da Serra Verde é, portanto, mais do que um negócio bilionário: é um sinal claro de que o país está no centro de uma nova corrida global por recursos.


