O Brasil enfrenta um momento crítico de endividamento. Dados da CNC (Confederação Nacional do Comércio) revelam que 80,4% das famílias possuem algum tipo de dívida, enquanto aproximadamente 27,5 milhões de pessoas estão com o nome negativado devido à inadimplência.
Apesar do aumento da renda e de níveis historicamente baixos de desemprego, cerca de 30% da renda familiar é destinada ao pagamento de dívidas. A situação é agravada pela taxa básica de juros de 14,75% e juros reais de 9,51%, que estão entre os mais altos do mundo, apenas atrás da Turquia, dificultando o pagamento das dívidas.
O ano de 2025 foi um marco para as concessões de crédito, com R$ 406,61 bilhões em empréstimos à pessoa física em dezembro, impulsionado pela facilidade de acesso ao crédito no pós-pandemia. Contudo, o alto custo do crédito e o elevado nível de endividamento criam um efeito cascata que deteriora a saúde financeira das famílias.
Em um artigo recente, especialistas do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) discutem as causas desse fenômeno e destacam a “retroalimentação” da dívida como um elemento central. Os economistas Flávio Ataliba Barreto, Pedro Avelino e João Mário Santos de França afirmam que, embora o crédito no Brasil continue a se expandir, essa expansão é desigual entre as famílias.
Enquanto o crédito agregado cresce, impulsionado pelo mercado de títulos e pelo financiamento do setor público, as famílias permanecem mais expostas ao crédito bancário tradicional, que apresenta taxas significativamente mais elevadas, chegando a cerca de 62% ao ano. A situação é ainda mais crítica no caso do crédito rotativo do cartão de crédito, onde as taxas podem atingir até 435,9% ao ano.
Atualmente, o gasto das famílias com o cartão de crédito consome 54% do orçamento familiar e 6,3% da renda apenas com juros. Os analistas apontam que essa linha de crédito é uma das mais caras do sistema financeiro, contribuindo para a elevação do custo médio do crédito às famílias.
A inadimplência do cartão de crédito retroativo já alcança 64%. O relatório do FGV Ibre também destaca que a taxa Selic elevada não é o único fator que eleva o custo do crédito, pois outros elementos, como o custo de captação dos bancos e despesas administrativas, também influenciam.
Os analistas defendem uma agenda de políticas públicas que inclua a redução do custo do crédito e a melhoria da qualidade do endividamento, além de um controle da inflação. Em março, o IPCA subiu 0,88%, acima do esperado, o que já afeta as expectativas para a política monetária. Segundo André Braz, economista do FGV Ibre, há uma alta probabilidade de nova pressão inflacionária em abril, o que pode levar a revisões nas projeções de inflação para 2027 e 2028.


