Uma pesquisa do Laboratório de Estudos em Família e Casal da PUC-Rio analisou as consequências psicológicas da ausência paterna em filhas criadas por mães solo. O estudo, realizado com seis mulheres de 21 a 29 anos na cidade do Rio de Janeiro, revela como essa ausência é vivida ao longo da vida.
Segundo o Dieese, até o terceiro trimestre de 2022, havia 11,053 milhões de lares chefiados por mães solo no Brasil, sendo 61,7% desses lares comandados por mulheres negras. A pesquisa busca entender a ausência paterna não apenas como um fato biográfico, mas como um fenômeno que gera efeitos subjetivos nas participantes.
Os relatos indicam que a ausência do pai é frequentemente interpretada como abandono, especialmente quando associada à sensação de não ter sido escolhida ou desejada. As participantes relataram que a ausência física do pai não é vivida da mesma forma por todas. Algumas nunca conviveram com ele e, portanto, não sentem falta, enquanto outras perceberam um afastamento gradual que se transformou em abandono emocional.
As histórias também mostram que a ausência paterna pode impactar a autoestima e os relacionamentos dessas mulheres. O medo de rejeição e a dúvida sobre o próprio valor pessoal são sentimentos recorrentes. Perguntas como “será que não fui suficiente?” surgem frequentemente, afetando a construção da identidade.
A pesquisa identificou diferentes estratégias de enfrentamento. Algumas participantes descrevem o pai de maneira distante, enquanto outras sentem emoções contraditórias. Essas estratégias são vistas como formas de proteção psíquica, ajudando a preservar o equilíbrio emocional diante das dificuldades.
Momentos de transição, como iniciar terapia ou tornar-se mãe, frequentemente reativam reflexões sobre a história familiar. Uma participante relatou que reconheceu a importância da figura paterna após o nascimento da filha, refletindo sobre o que não recebeu. Isso demonstra que a experiência do abandono pode ser reinterpretada ao longo do tempo.
Outro aspecto importante observado foi a repetição de histórias familiares, onde pais que vivenciaram abandono também podem ter dificuldades na parentalidade. O estudo sugere que crescer em uma família monoparental não determina sofrimento psicológico, mas a forma como os vínculos são vividos é crucial.
Os resultados ressaltam que a ausência paterna pode gerar sentimentos de rejeição e insegurança, mas também pode abrir caminhos para a elaboração psíquica e transformação. As narrativas das participantes mostram que, apesar das feridas, elas constroem sentidos próprios para suas histórias, ampliando o debate sobre parentalidade e responsabilidade afetiva.

